sábado, julho 18, 2015

A Conduta das Mulheres na Igreja - Subsídio para a lição 3 (Lições bíblicas).



"Aprendi mais sobre cristianismo com minha mãe do que todos os teólogos da Inglaterra"

John Wesley

Um dos grandes desafios hoje dentro do contexto eclesiástico assembleiano se refere à ordenação feminina. Não seria injusta a posição assembleiana brasileira que restringe as mulheres do pastorado? Tal polêmica não é nova, mas existe desde os tempos de Gunnar Vingren e Samuel Nyström.  Gunnar era um firme defensor do ministério pastoral feminino, Nyström era contra, o que levou a quase uma divisão entre os dois. No fim, a visão de Nyström prevaleceu e se tornou o padrão da doutrina assembleiana.

Todavia, estaria Nyström com a razão neste aspecto? Haja vista o grande, valoroso - e por vezes superior - das mulheres assembleianas desde os tempos de Frida Vingren? Só as Escrituras devem nos guiar nesta questão. 

Paulo não temia as afronta dos homens. É só atentar para a epístola ao Gálatas para comprovar tal fato. Seu compromisso era com Deus, e não com os homens. É bíblico o motivo que Paulo restringiu o exercício da mulher para o ofício eclesiástico. Vejamos 1 Timóteo 2:12-14: “Não Permito, porém, que a mulher ensine, nem que use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.”

É óbvio que Paulo não está restringindo a mulher de ensinar num sentido geral, uma vez que ele ordena que as mulheres mais velhas ensinem as mais novas (Tt 2:3-4), Timóteo, por exemplo, observou o testemunho de fé de sua avó Lóide e de sua mãe Eunice (1 Tm 1:5). Todos os cristãos são chamados, sem distinções, para evangelizar e fazer discípulos para Cristo, ensinando-os (Mt 18:19-20). Mas então, que tipo de ensino Paulo se refere? Veja que Paulo relaciona a Palavra “ensinar” com o exercer autoridade com relações aos homens. Alguns podem contra argumentar que Paulo utiliza a palavra Maridos e não homens. As edições Corrigidas de Almeida trazem "marido" ao invés de "homem". A palavra aqui seria melhor traduzida por “homem”. No original, a palavra grega é andros, o que dá a ideia do ser a ideia de ser humano masculino, diferente de antropos, que pode dar a ideia genérica de humanidade. A tradução "marido", também é legitimamente possível (cf. Mt 1.16). A King James Version, baseada no mesmo texto grego da tradução de Almeida (Textus Receptus), traduz a palavra por "homem", sendo que o próprio contexto mostra como homens e mulheres devem se portar na assembléia cultual, uma vez que Paulo está instruindo a Timóteo: “Mas se tardar, saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” (Tm 3:15). Note também que a base da proibição de Paulo não está nas questões culturais de sua época, mas por causa da criação pré-queda, onde Deus estabeleceu os papéis fundamentais das relações entre homens e mulheres. Há um forte eco com a explicação de nosso Senhor Jesus quando explica a base do casamento monogâmico, onde também utiliza como base a criação. Aí vemos a importância da doutrina da criação. Adão era o cabeça tanto da mulher quanto da humanidade. Isso revela uma situação tanto familiar quanto teológica. Adão era o cabeça da mulher (familiar) e também da humanidade (teológica). Há uma profunda relação entre família e igreja, sendo que esta última iniciou-se no seio da primeira.

Ora, se tenho como mentor espiritual uma mulher, o que me impede de dar a minha esposa a liderança espiritual de minha casa? O que me impede de colocá-la como minha líder? Praticamente nada. Paulo, no capítulo 3 de 1 Timóteo, não faz referência alguma a mulheres para a seleção de presbítero,poderia ter feito, mas não o fez, pelo contrário, ao bispado convinha que fosse casado e governasse bem a sua casa!

Com o advento do movimento feminista, mais e mais mulheres começaram a ter pensamentos e conceitos estranhos e alheios à Palavra de Deus. A mulher, antes vista como uma auxiliadora valorosa, exemplo para a família, agora deveria correr em busca de seus objetivos e sonhos, a despeito de seu marido, filhos ou família. O trabalho e a satisfação individual deveriam vir em primeiro lugar. Algumas mulheres podem objetar dizendo: "Mas o que há de errado em buscar um emprego, realizar seus sonhos, ter uma vida um tanto quanto independente de terceiros?". Não é pecado a mulher procurar ter uma formação intelectual e profissional, estou longe de ser contra isso, pelo contrário. O grande problema é quando essa busca de realização é tudo o que importa, na verdade é o que mais importa na vida. Um modo de vida onde maridos e filhos são o segundo plano e muitas vezes não há espaços ou tempo para eles. Hoje, os problemas na família cristã cada vez mais se dão por conta dos pais, que não buscam educarem os seus filhos na Palavra de Deus, deixando essa responsabilidade para o mundo.

A história das Assembleias de Deus no Brasil é marcada por mulheres valorosas, de oração e do Evangelho. Tal atuação não pode ser menosprezada. Cada vez mais vêm se destacando a esquecida obra de Frida Vingren nos primeiros anos da Assembleia de Deus, sendo que é louvável  destacar a importância dessa mulher na obra de Cristo. 

Todavia, junto com a homenagem, vem o pacote ideológico: havendo a Assembleia de Deus cercada por tão grandes mulheres, logo não deveria legitimar o pastorado feminino? Minha resposta é simplesmente um franco não. E a razão é bem simples: Nesses momentos, costuma-se usar em prol de um ministério feminino as mais variadas formas de argumentos, menos a Bíblia. Posso certamente discordar do tratamento dado a Frida em certas ocasiões, mas isso não me dá a justificativa para apoiar os seus equívocos. Creio ter sido acertada a firmeza doutrinária de Nyström a quase um século atrás nesta questão. A meu ver,  não estamos somente sendo fiéis as nossas raízes, mas a Palavra de Deus.

Se a mulher cristã reconhecer seu legítimo e abençoado papel no lar, na igreja e na sociedade, muitas bençãos espirituais surgirão e muitos serão abençoados, em especial o homens valorosos que surgirão, além do próprio cristianismo. E com certeza, muitas mulheres terão uma enorme satisfação, não somente pessoal, mas com certeza espiritual e glorificarão grandemente o nome de Deus.  E todos nós seremos abençoados.


Soli Deo Gloria 

segunda-feira, julho 13, 2015

GQL é agora "Servorum Dei"

O Blog "Geração que Lamba" mudará de nome. Após meses de conversas e interação, a equipe do blog sentia a necessidade de uma mudança de nome, e isso não sem razão. O Blog GQL nasceu dentro de um contexto de várias controvérsias acerca do movimento evangélico contemporâneo, com seus vários movimentos e, como dizemos na atualidade, com suas "modinhas" particulares, que por diversas vezes apresentavam (e apresentam até hoje) um cristianismo vazio e superficial, além de herético em muitos momentos. Por isso o título "Geração que Lamba" era um título irônico e de crítica diante de todas as ditas "gerações" que apareciam nas igrejas ("Geração de apaixonados", "geração de adoradores", etc). O título do blog por vezes levava à curiosidade e a mal-entendidos também, apesar da breve explicação que eu tinha dado no primeiro post do blog, em 2007. 

A grande razão para mudança se deve a talvez um conjunto de fatores, mas dois em especial: O blog se expandiu bem mais do que o contexto em que foi criado. Durante quase dez anos de existência, o Blog Geração que Lamba tratou dos mais variados temas e se envolveu inclusive em controvérsias, até mesmo envolvendo política eclesiástica, como as questões da CGADB e a Bíblia Dake. Outro fator importante é que o tempo também foi sentido na  vida dos editores do blog. Os estudos e artigos ficaram mais refinados com o passar do tempo, e isso certamente se deve ao amadurecimento que cada um passou. Quando começamos, alguns estavam na adolescência, hoje quase todos estão casados com filhos, e os que não desfrutam do leito conjugal,  o matrimônio está às portas. Quando começamos, éramos pentecostais situados em linhas mais arminianas, hoje, somos pentecostais dentro de um parâmetro da teologia reformada e evangélica. 

Por estas razões, vimos a necessidade de mudar o nome do blog, apesar de ficarmos com saudade do nome original, no qual iniciamos nossos artigos (a bem da verdade, o nome original continuará em sigla, como um subtítulo do blog). Então a "geração que Lamba" acabou? De forma alguma, o que aconteceu foi o mesmo que  aconteceu com J. I. Packer, quando revisou e ampliou o seu livro Hot Tub Religion (Religião de Banheira Quente) e o intitulou God's Plan for You ( O Plano de Deus para Você), a justificativa dada por Packer foram as palavras que agora transcrevo:

"Frequentemente sou indagado se, com o passar dos anos, mudei meu pensar sobre alguma coisa no cristianismo. A resposta é não. Pelo menos, não conscientemente. Se há uma diferença, é no modo como as posições divergem da minha. O pianista chileno, Claudio Arrau, quando indagado sobre como o envelhecimento mudou seu modo de tocar, respondeu: 'os dedos ficaram mais sábios'. Espero que algo parecido possa ser dito dos itens já publicados desse livro".

É com esse mesmo espírito que mudamos o título desta página para a expressão latina "servorum Dei". No primeiro artigo que escrevi, o título era "Escravos da Verdade", pois foi com esse propósito que o blog fora criado. A expressão "servorum Dei (servos de Deus) de maneira alguma desfaz isso. Só somos servos de Deus se obedecermos a Jesus, que é a Verdade. Só seremos servos de Deus se formos santificados pelo Pai na verdade. E a Palavra de Deus é a Verdade. Para isso batalhamos. Para sermos uma geração que, como servos genuínos, busca a glória de Deus, sendo cristãos e biblicamente ortodoxos. Sendo escravos da verdade. Sendo servos de Deus.

Amém
Soli Deo Gloria

sábado, julho 11, 2015

O Evangelho da Graça (subsídio para Lições Bíblicas).

"...Contanto que cumpra com alegria a minha carreira e
o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho
do Evangelho da Graça de Deus" At 20.24

A cidade de Éfeso recebeu a forte presença do Apóstolo Paulo, que solidificou e praticamente fundou a igreja na região, pois lá encontrou pessoas que não haviam sido batizadas nem sabiam que havia o Espírito Santo (At 19: 1-2). A visita de Paulo causou confusão na cidade, que era marcada por uma grande idolatria à deusa Diana. Os ourives da cidade, influenciados por Demétrio, que estava preocupado com seu emprego, desencadearam uma perseguição ao apóstolo, que só foi parado pela providencial mão de Deus sobre o escrivão da cidade (At 19:35-41). O fruto na cidade de Éfeso foi muito grande, pois milhares de livros místicos foram queimados.

A igreja também teve em sua companhia o amado Timóteo, que era como um filho adotivo de Paulo. Quando Paulo partiu definitivamente de Éfeso, para não mais voltar, ele alertou à igreja que se introduziriam falsos profetas que não poupariam o rebanho, o alerta foi em especial aos líderes daquela igreja (At 20: 28-32). Alguns comentaristas sugerem que os falsos obreiros a quem Paulo se refere são certos hereges gnósticos primitivos, o que é possível, mas tal sugestão é apenas especulativa, haja vista que o gnosticismo se torna mais latente na igreja primitiva no final do primeiro século. Mas então, o que aconteceu a Éfeso depois disso? Ao que tudo indica realmente a palavra que Paulo pronunciou se cumpriu. Todavia, ele também sabendo da sua responsabilidade, enviou para a igreja seu filho Timóteo, o que foi uma grande benção para aquela igreja, apesar de logo no inicio, o rapaz apresentar timidez e ser novo demais para o pastorado, como Paulo revela na epístola para o jovem, que também fala que ele deveria refutar as falsas doutrinas e ser um exemplo de liderança na igreja (1 Tm 4.12). 
Um dos exemplos que Timóteo deveria apresentar para a igreja em Éfeso era certamente uma doutrina pura, um evangelho genuíno e não diluído por discussões inúteis e espiritualidade pueril. É por isso que logo no versículos seguintes Paulo exorta Timóteo a ter cuidado e perseverar na doutrina genuína, tanto para o bem dele quanto dos ouvintes da igreja. O alerta de Paulo é extremamente relevante para nós hoje, e especial para aqueles que trabalham na Palavra e na doutrina. No tempo de paulo e Timóteo, a igreja de Éfeso vivia em uma cidade que valorizava o misticismo e religiões de mistério do oriente. Ali havia o culto a Diana, feitiçaria e prostituição sagrada. Não é de admirar que a epístola aos Efésios ( que também  serve como um carta circular para as regiões da ásia menor) é a que mais destaca o tema da guerra espiritual na teologia Paulina. Os efésios deveriam permanecer firmes diante dos problemas, tanto de fora, quanto de dentro, causados por falsos mestres.

Era dever de Timóteo proclamar o genuíno evangelho de Cristo. No dizer do apóstolo Pedro, Timóteo deveria alimentar a igreja com leite racional, não falsificado, para que assim genuinamente crescessem na graça e no conhecimento de Cristo Jesus (1 Pe 2.2; 2 Pe 3.18). Isso só poderia acontecer se Timóteo proclamasse o santo e bendito Evangelho da Graça de Deus em Cristo. Só o evangelho, que é a mensagem do Cristo crucificado e ressurreto, que há de voltará para julgar vivos e os mortos, é que tem poder pra  salvação por meio da fé. A salvação não é algo a ser conquistado pelo esforço humano. Como diria Lutero, não é uma "teologia da glória", ou seja, um mero conhecimento das obras de Deus e utilização do raciocínio humano é que podemos ser salvos, mas sim pela fé naquilo que Deus fez de maneira grandiosa e escandalosa para a razão humana contaminada pelo pecado: salvar pecadores por meio da cruz de Cristo, de seu sacrifício na cruz. É por isso que Paulo não se envergonhava do evangelho pois era o poder de Deus para a salvação de todo o que cresse nessa boa notícia. O evangelho poderia ser escândalo para os judeus e loucura para os gregos, mas os que são salvos, pois é o poder de Deus. Diante de tal realidade, o que fazer? A Resposta do apóstolo era clara:

a) Timóteo deveria guardar esse evangelho (1 Tm 1:18).

b) Timóteo deveria combater por esse evangelho (1 Tm 6.12).

c) Timóteo deveria pregar esse evangelho destemidamente (2 Tm 4.1).

As guerras e os combates por vezes provém da estupidez, depravação e soberba humana. Porém o que voluntariamente combatem por Cristo genuinamente combatem por uma boa causa. é por isso que o resultado dessa luta é o troféu de Glória (1 Tm 6.12). O genuíno lutador e que consegue vencer é o que vence, no dizer de Hans Bürki "a partir da fé". E é essa a conjuração que Paulo faz a Timóteo: "Prega a palavra". Só assim seremos bons soldados de Cristo. E bem certo que essa é a mensagem de Deus para todo o soldado cristão, que faz parte do batalhão espiritual de Deus.

Amém.

Soli Deo Gloria

sábado, julho 04, 2015

As Pastorais: Uma mensagem à igreja local e a liderança (subsídio para as Lições Bíblicas)




É comum ver nas pinturas de Paulo a Bíblia e a espada.
Aqui, uma pintura feita por  Peter Paul Rubens. (1577-1640)
Introdução

Perto do início de 70 d. C. , os apóstolos Paulo e Pedro escreveram suas epístolas, sendo martirizados
não muito tempo depois. Os cooperadores dos apóstolos, como o escritor de Hebreus e Judas, encorajaram e exortaram o povo de Deus nesse período. Por fim, da primeira geração de apóstolos havia apenas um, João (que provavelmente era o "caçula" do colegiado apostólico), o qual será o escritor mais prolífico do Novo Testamento depois de Paulo.

I. As Pastorais – as últimas cartas de Paulo.

Pouco depois de sua libertação de Roma, ele continuou seu trabalho de plantar igrejas, sendo que é dito inclusive que ele viajou para a Espanha. O certo é que ele implantara várias igrejas, sendo que para garantir a saúde dessas igrejas, ele envia Tito, antes ele envia Timóteo a Éfeso, ambos seus cooperadores.
Essas três últimas cartas são chamadas de “pastorais” e nunca receberam contestações até o século XVIII, quando questionou-se a autoria de Paulo como o autor dessas epístolas, devido a mudança de vocabulário e teologia, e supostamente por que a igreja já havia se organizado, tendo até ministros pagos.

Nenhuma dessas proposições convence, pois a mudança de vocabulário e teologia se dá por causa da mudança de assunto e propósito. Não há nada nas pastorais que contradiga a teologia e biografia de Paulo.

A igreja primitiva já era organizada desde a sua origem, que contava com presbíteros/bispos e diáconos, assim também como ministros que recebiam remuneração, algo aprovado pelo próprio Paulo ( 1 Co 9.1-19).

Analisemos, então, o conteúdo das pastorais:

A) 1 Timóteo (65 d. C.):

Paulo, após a sua libertação da prisão em Roma (At 28), viajou para a Espanha (conforme Clemente de Roma, 96 d. C.). Depois de ministrar a Palavra de Deus, Paulo voltou a região do mar Egeu (em especial Creta, Macedônia e Grécia), continuando seu ministério ali, foi quando enviou Timóteo a Eféso. Assim, posteriormente, ele escreve a Timóteo sua 1º epístola a este jovem.

Propósito: 1 Timóteo foi escrita para encorajar a Timóteo em seu ministério, vencendo a  timidez que parecia ser característica dele (1 Co 16.10; 2 Tm 1.7). Paulo tem um propósito tríplice em escrever a Timóteo:

1. Exortar a Timóteo a respeito de seu ministério e vida pessoal.
2. Exortar  Timóteo a defender a pureza do evangelho e seus santos padrões por causa da corrupção dos falsos mestres.
3. Instruir Timóteo a várias questões de natureza eclesial da igreja de Éfeso.

Mais que qualquer outra epístola paulina, 1Timóteo urge em necessidade da responsabilidade pastoral de pregar o evangelho fiel e verdadeiramente.  
Conteúdo:
I. A sã doutrina (cap. 1).
II. Oração Pública ( cap. 2).
III. Qualidades ministeriais (3.1-13).
IV. Doutrina falsa (3.14-4.11).
V. Instruções pastorais (4.12-6.2).
VI. Exortações finais ( 6.3-21).
Versículos-chave: 1 Tm 1.15;2.4-6.

2 Timóteo (67 d. C.)
Tema: Perseverança na Fé.
Paulo voltara a Roma (1.16-17), sendo que devido a perseguição efetuada por Nero, foi novamente encarcerado, estava sofrendo as privações de um prisioneiro comum (2.9), abandonado pela maioria de seus amigos (1.5) e tinha consciência que seu ministério chegara ao fim e sua morte se aproximava (4.6-8,18). Então ele escreve seu testamento espiritual a Timóteo (e também a todos nós). Encorajando-o firmemente a ser um genuíno ministro de Cristo e não deixar-se levar pela timidez, mas ser firme diante das perseguições, não se envergonhando do Evangelho de Cristo.

Propósito: Sabendo que Timóteo era um jovem tímido e dos problemas internos (heresias) e externos (perseguição) que estavam cada vez mais intensos, Paulo escreve para Timóteo exortando-o a:
A) Defender o Evangelho.
B) Pregar a Palavra.
C) Perseverar na tribulação.
D) Cumprir sua missão.

Resumo:
I. Introdução (1.1-5).
II. Exortações referentes aos sofrimentos e perseguições futuras (1.6-2.13).
III. Exortações referentes a apostasia atual (2.14-26).
IV. Exortações referentes a apostasia futura (3.1-4.8).
V. Conclusão (4.9-22).

É interessante vermos as exortações sucintas de Paulo a Timóteo:
“Despertes o dom de Deus” (1.6).
“Não te envergonhes” (1.8).
sofre pelo evangelho (1.8).
Sê diligente na Palavra (2.15).
“Evita os falatórios profanos” (2.16)
“pregues a Palavra” (4.2).
“faze a obra de um evangelista” (4.5).
Obs: 2 Timóteo têm o versículo mais claro acerca da natureza das Sagradas Escrituras e sua importância para o ministério e igreja.
Versículos-chave: 2 Tm 1.10; 2.19; 3.16.


Tito (65/66 d. C.).

Tema: A Sã doutrina e as boas obras.

Tito era um gentio convertido, provavelmente grego (Gl 2.3), tornou-se companheiro íntimo de Paulo no ministério. Especula-se que na verdade era irmão de Lucas, e por isso não foi citado por ele em Atos. Após ser liberado de sua primeira prisão em Roma, Paulo viajou com Tito por um breve período em Creta, sendo que Paulo deixou Tito em Creta cuidando da igreja e organizando-a ali (1.5). Nesta carta, Paulo e diz que enviará Ártemas ou Tíquico para substituiu-lo, sendo que Tito deveria encontrá-lo em Nicópolis, onde Paulo planejava passar o inverno, em ocasião posterior, Paulo designou Tito para a Dalmácia(2 Tm 2.4).

Propósito: Paulo tem com objetivo ao escrever a Tito  algo semelhante ao de Timóteo, porém Tito tem a tarefa de terminar de estabelecer a igreja que Paulo deixou em Creta. É bem parecida com 1 Timóteo, porém possui algumas distinções devido a natureza particular da igreja em Creta.

Resumo:
I. Introdução (cap. 1.1-4).
II. Informações pessoais e organização da igreja (1.5-16).
III. Organização da Igreja, informações pessoais e profissão de fé (2.1-15).
IV. Organização da igreja e informações pessoais (3.1-11).

Versículo-chave: Tt 2.11.


Conclusão:

As epístolas pastorais possuem várias características especiais. Aqui vemos Paulo na intimidade, como um experimentado líder, que é divinamente inspirado a orientar não somente dois jovens ministros, mas certamente toda a liderança da igreja cristã. As lições das pastorais permanecem atualíssimas, tanto para ministros, como para a igreja. Quem as lê e medita em seu santo conteúdo saberá "como convém andar na casa do Deus vivo. Coluna e firmeza da Verdade" (1 Tm 3.15)

Soli Deo Gloria


Nota: Para compor esse estudo, o editor fez uso de obras como Introdução aos Escritos do Novo Testamento, de Erich Mauehofer e A Bíblia Livro por Livro, de Myer Perlman, ambos publicados pela editora Vida.

domingo, abril 05, 2015

Você sabia que a história bíblica é real?

Nestes dias próximos à Páscoa tenho me deparado com algumas atitudes que demonstram bastante confusão quanto aos fatos históricos narrados pela Palavra de Deus. Tais ações testificam que muitas pessoas - inclusive cristãs - não veem a Bíblia como histórica, factual; e sim como uma espécie de mera ilustração de bons exemplos para nós hoje. Gostaria de destacar algumas dessas ideias neste texto e ao mesmo tempo tratar deste tema em dois pontos gerais. Vejamos:
 
1) A história bíblica trata de fatos históricos reais.

Há alguns meses participei de um estudo bíblico em que lemos a narração do Nascimento de Jesus no Evangelho de Lucas. Durante a meditação no texto surgiu a seguinte pergunta: "Se um anjo viesse lhe anunciar que você foi escolhida para ser a mãe de Jesus, como você se sentiria?" E daí se iniciou toda uma discussão sobre isso. Ao fim desta, veio a conclusão: "Então, precisamos ser humildes e obedientes a Deus como Maria o foi."

Hoje vi algo bem semelhante na televisão. Ao comentarem acerca dos eventos representados na peça "a paixão de Cristo", certas pessoas disseram algo assim: "Assim como Jesus se entregou a Deus e morreu, precisamos também dar o nosso tudo para Ele."

Você notou o ponto que quero destacar? As pessoas não estão se preocupando em estudar como se deu o fato narrado pela Bíblia na época da Bíblia, e sim em meramente como "seria" se fosse hoje (e conosco). Portanto, precisamos nos lembrar de que quando lemos a narração de Lucas acerca do Nascimento de Jesus, por exemplo, José e Maria tiveram de lidar verdadeiramente com esse milagre de Deus: Maria, porque era virgem e mesmo assim conceberia o Filho de Deus, pela ação do Espírito Santo; José, porque era justo e não queria infamar a sua futura esposa. São duas pessoas reais que tiveram de lidar com isso. Nós, entretanto, não temos de lidar com essa experiência da mesma maneira. Deus não irá escolher nenhuma virgem de nosso tempo para ser a mãe do Messias. Tal fato já aconteceu há mais de dois mil anos. 

Quanto à morte de Jesus - o outro exemplo que citei acima - o número de problemas de interpretação são ainda maiores. Muitos dizem "que lindo exemplo", "um amor verdadeiro que devemos imitar" e coisas afins. Mas a morte de Jesus foi um evento único na história. A morte de Cristo foi um sacríficio santo diante do Deus santo em favor de pecadores indignos, os quais são amados pelo próprio Deus santo que enviou Seu Filho ao mundo. Como lemos em João 3.16: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna". Nem eu nem você podemos fazer o mesmo. Somos pecadores, não podemos pagar a nossa dívida diante de Deus por nossos próprios esforços.

2) A história bíblica trata de fatos históricos que tem tudo a ver conosco.

Entender os fatos históricos da Bíblia em seus devidos contextos não implica em dizer que nós não temos nada a ver com isso. Pelo contrário, todos eles tem tudo a ver conosco (e com nossa eternidade). Agora precisamos tomar o devido cuidado para entendermos como nós nos relacionamos com tais eventos.

Ao invés de pensarmos "como seria se fosse comigo?", devemos pensar "como eu respondo a tal fato?" Ou seja, quando lemos sobre o Nascimento de Jesus nos Evangelhos, estamos lendo sobre a doutrina da Encarnação. Deus se fez homem na Pessoa de Jesus. Jesus era (e é) plenamente Deus e plenamente homem. Nas palavras do apóstolo João: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a Sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade" (Jo 1.14). Portanto, a questão é: você acredita nisso? Quem é Jesus para você? Você se rende ao senhorio dEle? Ou para você Jesus não passa de um grande profeta? Saiba de uma coisa: ou você o considera como o Filho de Deus (o que Ele realmente é) ou como uma pessoa indigna de adoração.

Jesus morreu. Ele sofreu na cruz do calvário para cumprir o seu ministério de Redentor. Ele pagou a dívida de todos aqueles que hão de se achegar a Deus por meio dEle pela fé. Está tudo consumado. E onde você entra nisso tudo? É simples: ou você confia no sacrifício de Jesus e é salvo da ira de Deus unicamente com base nos méritos dEle diante do Pai, ou você permanece debaixo da ira de Deus, de quem você é inimigo se você não está em Cristo. Como bem nos ensina o texto sagrado: "Aquele que crê no Filho tem a vida eterna, mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece" (Jo 3.36).

É dessa forma que precisamos lidar com o texto bíblico. Pois ele não trata de meras figuras do que devemos fazer. É claro que temos muito a aprender com Adão, Eva, Noé, Abraão, José, Davi, Salomão, Jó e inúmeros outros homens e mulheres cujas vidas estão registradas nas Sagradas Escrituras. Mas lembremo-nos: cada um deles viveu o que está escrito Nelas.

Concluo este breve texto com as inspiradas palavras do autor de Hebreus:

"Portanto, nós também, pois, que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia e corramos, com paciência, a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus" (Hb 12.1,2).

Que Deus seja glorificado.  

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Devocional: Viva a Vida Real


“Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união!” (Sl 133.1)

A Palavra de Deus é maravilhosa. É por meio dela que o Senhor nos revela a Sua vontade e nos instrui de que modo devemos viver. Portanto, oro a Deus a fim de que Ele nos abençoe nesta breve meditação.

No texto em destaque, as palavras “vivam” e “união” me chamam bastante a atenção. Porquanto, sem sombra de dúvidas, estas pequenas palavras se relacionam com um dos grandes desafios em nosso tempo: viver.

De fato, não é fácil viver em nossos dias – pelo menos não como a Bíblia nos prescreve: em união, verdadeiramente. Construir relacionamentos genuínos e profundos é uma grande dificuldade na era do Facebook, Whatsapp, Candy Crush e inúmeras outras coisas que a internet e nossos celulares podem nos oferecer. A velocidade que adquirimos para nos comunicarmos, infelizmente, reduziu drasticamente a qualidade afetiva de nossa comunicação com as pessoas que nos cercam.

Na web, a nossa vida é incrível. As fotos que postamos na timeline são somente as que apresentam nossos melhores momentos. Os nossos amigos, além de serem quase que incontáveis, são sempre os “bests” e tudo o que imaginarmos para escrevermos após um hashtag (#). E o amor? É raro não vermos namorados ou casais em suas maiores declarações em relação a mais um mês de namoro ou casamento.

Entretanto, essa não é a vida real. Pois nem sempre estamos em nossos melhores momentos; muitas vezes nos passeios que registramos na rede social como “#melhorpasseio#bestsforever”, quase não conversamos sobre assuntos de fato importantes; e, para tristeza nossa, às vezes deixamos de declarar nosso amor à namorada ou esposa por meio de gestos simples, como ouvi-la com atenção, honrar o horário de nossos compromissos e expor nossos sentimentos – com os olhos fitos nos dela.

A internet tende a nos levar a uma vida mecânica em que facilmente nos compadecemos da situação do nosso próximo e dizemos que oraremos por ele – embora muitas vezes esqueçamos de fazê-lo de fato. Além disso, tal mecanicidade afeta inclusive nosso relacionamento com Deus, porquanto compartilhamos inúmeros posts com dizeres cristão enquanto que às vezes, na nossa privacidade, o nosso tempo com Deus por meio da leitura bíblica e da oração é pouco ou quase nenhum.

A vida real, no entanto, concedida a nós pela graça de Deus, é espontânea e cheia de emoções e riscos. Enquanto que é fácil usar o teclado do computador para declaramos nosso amor a familiares e amigos; na vida real, o amor só é possível a partir do gastar de tempo juntos, da exposição de coisas pessoais – por exemplo, segredos que provavelmente serão compartilhados com terceiros por meio de seu amigo – e da vitória sobre a timidez de até mesmo dizer “oi” para o outro (mesmo que na internet pareçamos as pessoas mais comunicativas do mundo). 

Diferentemente da realidade virtual, nossos relacionamentos envolvem sentimentos reais, de maneira que podemos alegrar ou entristecer uns aos outros e necessitamos vencer o orgulho para pedir perdão por nossos erros, de modo pessoal e genuíno – não via bate-papo do Facebook. E quanto ao amor, nossos melhores momentos com nossas respectivas namoradas, noivas ou esposas não devem estar na timeline, onde qualquer um pode ver, mas sim em nosso coração, em que guardamos aquela conversa singela e especial no silêncio de nossa privacidade. Embora não seja pecado homenagearmos, na rede social, as pessoas que amamos, não podemos permitir que nossos melhores momentos estejam lá.

Que Deus nos ajude a viver a vida real. Que gastemos menos tempo na internet e mais tempo com nossa família, amigos e irmãos em Cristo. Pois somente desta forma poderemos experimentar a bênção cantada pelo salmista: “Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união!” (Sl 133.1)

Que Deus seja glorificado.

sábado, janeiro 03, 2015

Os Dez mandamentos e as visões teológicas acerca da Lei. (Subsídio para a Lição Bíblica)

Neste trimestre, a revista Lições Bíblicas da CPAD abordará o ensino dos Dez Mandamentos, sendo que há duas lições introdutórias acerca do Pentateuco e acerca da relação entre Lei e Graça. A revista tem comentarista o teólogo Esequias Soares, respeitado erudito assembleiano.

É importante ressaltar que o estudo dos dez mandamentos, em especial a do papel da Lei de Deus para o crente hoje já foi foco de inúmeros debates, e por mais que não pareça, há diferentes visões dentro do mundo evangélico conservador acerca da relação do crente e da Lei de Moisés (o que também inclui os dez mandamentos). Esse artigo visa elencar as principais visões teológicas de maneira sucinta e não exaustiva, visando fornecer um subsídio auxiliar para as lições 1 e 2 desse novo trimestre. Há outras obras que tratam com mais detalhes as diferentes linhas teológicas acerca do papel da Lei em relação a graça que o leitor pode pesquisar com afinco (1). Vejamos, então, os pontos de vista propriamente ditos:

1. A Perspectiva Luterana: Lutero tinha uma visão bem peculiar acerca da relação entre a Lei, e o Evangelho, sendo que praticamente formulou seu sistema de teologia em um contraste da Lei e Evangelho, influenciado pela soteriologia apresentada pelo apóstolo Paulo na Epístola aos Romanos. Para Lutero, a Lei era santa e boa, porém demanda algo que o ser humano comum não pode exercer: boas obras perfeitas. Portanto, o propósito doador da Lei não era visando simplesmente a santificação, mas como um instrumento para humilhar o ser humano pecador, manifestando assim, o seu pecado, deixando-o sem saída e assim, apontando para Cristo, a ser recebido pela fé. Assim, vemos que no âmago de seu pensamento, existe a questão da doutrina da Justificação pela Fé, tão preciosa para Lutero.  Mas então, como fica a questão das boas obras e dos dez mandamentos? No pensamento Luterano o cristão não está mais sobre Moisés, logo, ele não está mais debaixo da Lei, pois isso implicaria estar debaixo da maldição da Lei de Moisés, mas sob a Lei de Cristo (Cf. Gl 5.18; Rm 6.14,15; 1 Co 9.20). O Cristão, portanto não é responsável a obedecer a Lei de Moisés de maneira imediata, porque sua forma e estrutura foram dados para o povo de Israel, mas sim a Lei eterna de Deus como expressa por Cristo e pelos apóstolos, debaixo da orientação do Espírito Santo (sendo que muita da Lei de Moisés é incluída na Lei de Cristo). Com isso, não se rejeita os Dez mandamentos, mas se pensa nestes como um reflexo que contém princípios válidos para o crente atual, pois refletem a Lei eterna de Deus. O próprio Lutero diz em seu Catecismo Maior que "quem entende os Dez Mandamentos bem e por completo entende a escritura inteira, de modo  que pode aconselhar, ajudar, confortar, julgar e decidir em todas as questões, tanto no plano espiritual quanto temporal, podendo ser juiz sobre doutrinas, classes sociais e profissionais, espíritos, na área do direito e do que mais exista no mundo" (2). Um dos grandes defensores dessa abordagem na atualidade, com algumas modificações, é o teólogo Douglas Moo(3).

2. A Perspectiva Reformada: Diferentemente de Lutero, Calvino não formulou seu sistema nem dividiu os testamentos entre Lei e Evangelho, mas via uma continuidade entre a Lei de Moisés, em especial aos dez mandamentos, e o evangelho, pois tanto a entrega da Lei de Deus no Sinai e o ensino do Senhor Jesus foram dados dentro do mesmo escopo da Aliança, a Aliança da Graça, sendo que o Evangelho é o pico dessa aliança. A evidência entre a continuidade essencial entre a lei e o evangelho é porque tanto no período da entrega da Lei houve antes redenção (Cf. Êx 20.2), quanto no tempo da graça houve Lei (Tg 1.25; 2.12), o próprio Paulo não anulou a Lei (Rm 3.31). Portanto, a Lei moral de Deus não foi simplesmente expressa na dispensação do antigo concerto, nem tampouco é uma das expressões da Lei moral eterna de Deus para uma nação específica, mas é em seu conteúdo moral, A própria Lei de Deus expressa de maneira clara nos Dez mandamentos. Não se quer dizer com isso que não houve descontinuidade, pois a lei possui três aspectos: o aspecto moral, que é o cerne da Lei e expresso nos Dez mandamentos, os aspectos cerimonial e civil são expressões da Lei de Deus quanto a situação específica da comunidade de Israel, e possuem princípios importantes, mas não necessitam ser aplicados em sua totalidade nem diretamente pelos crentes atuais, ao contrário da Lei moral(4). O teólogo reformado Philip Ryken afirma: "Ainda devemos guardar a Lei hoje? Claro que devemos! Como a Bíblia demonstra do começo ao fim, os Dez Mandamentos nos mostram a maneira certa de viver. Estão fundamentados na justiça de Deus, o que explica porque mesmo o Novo Testamento tem tantas coisas positivas sobre a lei de Deus...como crentes em Jesus Cristo, ainda precisamos guardar a Lei de Deus? precisamos. A lei moral expressa a vontade perfeita e justa de Deus para a nossa vida. Jesus, então, nos ordena que a guardemos, não como uma maneira de ficarmos bem com Deus, mas como forma de agradarmos a Deus, que nos corrigiu com Ele" (5). O célebre teólogo reformado Ernest Kevan ainda é mais enfático: "A Lei de Moisés é nada menos do que a Lei de Cristo"(6). A perspectiva reformada é endossada por muitos cristãos, como os presbiterianos e batistas. Essa visão é essencialmente a mesma dos grupos arminianos e arminianos/wesleyanos, com a diferença é que este últimos possui mais as ênfases de santidade de Wesley, onde focaliza a motivação e o amor no servir a Deus.

3.A Perspectiva Dispensacionalista: A perspectiva dispensacionalista de certa forma retoma o pensamento luterano, pois encontra muitos pontos de apoio com este no que tange ao papel da Lei inclusive esboçando argumentos semelhantes, porém com elementos distintos devido a sistema teológico: o elemento básico e fundamental da teologia dispensacionalista é diferença entre Israel e a igreja. Charles Ryrie diz que esta "é a prova teológica mais básica de uma pessoa ser ou não dispensacionalista, e sem dúvida é a mais prática e conclusiva"(7) Ao contrario do que prega a teologia reformada, israel não se constitui a igreja do Antigo Testamento, mas sim o povo de Deus em uma dispensação própria, com regulamentações distintas da igreja, que era o mistério de Deus que foi revelado somente na dispensação presente (Ef 1.9-13), um povo que congrega tanto judeus como gentios. Por isso, a Lei de Moisés (incluindo sua forma nos dez mandamentos) foram entregues sobre a vigência do Pacto feito com os israelitas, pacto este que foi quebrado por eles que falharam em ser governados pela Lei. O crente na atual dispensação não é mais guiado pela Lei, mas pela graça de Deus em Cristo na dispensação atual. Não se quer dizer com isso que não havia graça no At nem que  a salvação fosse pelas obras na antiga dispensação, mas como afirma Ryrie:"as Escrituras dizem que sua vinda [de Cristo] demonstrou a graça de Deus com tamanha magnitude que todas as demonstrações anteriores eram como se nada fossem", e acrescenta:  " a lei deveria conduzir os israelitas a Cristo. No cumprimento desses propósitos pelos quais foi dada a Lei, a graça não foi, e para os propósitos a lei foi 'acrescentada ao lado' da promessa a fim de desenvolver o relacionamento de Israel com Deus naquele tempo" (8).   

Algo comumente afirmado por teólogos não dispensacionais é que  o dispensacionalismo ensina duas formas de salvação, algo definido como mito por Wayne Strickland: "é importante observar que o dispensacionalismo nunca  defendeu a posição que há dois caminhos de salvação: a lei mosaica para as pessoas do At e a fé para as pessoas do NT"(9). O que há na verdade são duas dispensações, uma onde o povo de Deus é guiado pela Lei de Moisés, essa dispensação e a lei de Moisés findam quando Cristo veio, e agora, o cristão é guiado pela Lei de Cristo, que encontra correspondência  na lei de Moisés por estar refletida na vontade soberana de Deus. A Lei de Moisés é unificada, não podendo, portanto, ser dividida em categorias. Aqui o pensamento dispensacional encontra reflexo no pensamento Luterano. A diferença, é que para os dispensacionalistas em sua maioria, o milênio vindouro apresentará novamente elementos da Lei mosaica, como o sacrifício de animais (embora de maneira memorial), pois ali Deus estará cumprindo suas promessas no que tange a nação de Israel. Essa visão é adotada por várias denominações que seguem uma escatologia dispensacionalista, como muitas igrejas batistas, congregacionais, dos irmãos e pentecostais.

Basicamente, estas são as três visões principais endossadas pelos cristão evangélicos. No contexto assembleiano, era muito comum uma forma de dispensacionalismo popular acerca da Lei, dizendo que hoje estaríamos no tempo da graça, sendo salvos pela fé (ainda que, de maneira interessante, não desestimulasse a santidade e até mesmo não impediu o legalismo). Hoje tal visão desvaeceu e existe em pequenos nichos. Todavia, a assembleia de Deus mantém uma perspectiva da santificação bem semelhante a reformada, porém no que tange ao papel da Lei, encontra-se dividida, sendo porém sua maioria possui uma visão dispensacionalista, visão esta que é adotada pelo comentarista da revista. Porém, uma estrutura reformada no meio assembleiano parece ter recebido ênfase maior na denominação, algo que se dá pelo fato de sempre haver um considerável reverência pelos dez mandamentos no meio assembleiano. Talvez ambas as visões compartilhem espaço no meio pentecostal. Independentemente disso, é interessante se aprofundar nestas questões, visando aperfeiçoar nossa visão bíblica acerca da obediência a Lei de Deus em nossos dias, que deve ser o desejo de todo aquele que segue e ama genuinamente o Senhor (Salmo 1.1-2).

Soli Deo Gloria

Notas:

1. Uma excelente obra ainda disponível em livrarias é "Lei e Evangelho: Cinco pontos de Vista", publicada pela Editora Vida.
2.LUTERO, Martim. Catecismo Maior. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2012. p. 26.
3. Douglas Moo é um renomado teólogo Luterano conservador, é um dos contribuidores da obra Lei e Evangelho, anteriormente citada. Moo também escreveu um artigo falando acerca da descontinuidade da Lei e Evangelho na obra "Continuidade e Descontinuidade: perspectivas sobre o relacionamento do Antigo e Novo Testamento", publicada pela editora Hagnos.
4. Alguns teólogos reformados defendem a validade da Lei civil na sociedade hoje, ainda que mediada por Cristo. Eles são conhecidos como teonomistas ou reconstrucionistas. Desse grupo se destacaram Greg Bahnsen (falecido em 1995) e Rousas Rooshdoony (falecido em 2001) . Na atualidade, Kenneth Gentry é um defensor de destaque.
5. RYKEN, Philip Graham. Os Dez mandamentos para os Dias de Hoje. Rio de janeiro: CPAD, 2014. p. 21.
6. KEVAN, Ernest. A Lei Moral. São Paulo: Os Puritanos, 2000, p. 7.
7. RYRIE, Charles C. Dispensacionalismo: ajuda ou heresia?. Mogi das Cruzes: ABECAR, 2004. p.49.
8. Ibid.  p. 67, 133.
9. GUNDRY, Stalney (org). Lei e Evangelho: 5 pontos de Vista. 2° ed. São Paulo: Editora Vida, 2013.p. 255.

"Porque nós não somos, como muitos, falsificadores da palavra de Deus; antes, falamos de Cristo com sinceridade, como de Deus na presença de Deus... não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus... E Temos, portanto, o mesmo espirito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nós cremos também, por isso também falamos. Sabendo que o que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também por Jesus, e nos apresentará convosco"

2 Coríntios 2:17; 3:5; 4:13-14