Você sabia que a história bíblica é real?

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Nestes dias próximos à Páscoa tenho me deparado com algumas atitudes que demonstram bastante confusão quanto aos fatos históricos narrados pela Palavra de Deus. Tais ações testificam que muitas pessoas - inclusive cristãs - não veem a Bíblia como histórica, factual; e sim como uma espécie de mera ilustração de bons exemplos para nós hoje. Gostaria de destacar algumas dessas ideias neste texto e ao mesmo tempo tratar deste tema em dois pontos gerais. Vejamos:
 
1) A história bíblica trata de fatos históricos reais.

Há alguns meses participei de um estudo bíblico em que lemos a narração do Nascimento de Jesus no Evangelho de Lucas. Durante a meditação no texto surgiu a seguinte pergunta: "Se um anjo viesse lhe anunciar que você foi escolhida para ser a mãe de Jesus, como você se sentiria?" E daí se iniciou toda uma discussão sobre isso. Ao fim desta, veio a conclusão: "Então, precisamos ser humildes e obedientes a Deus como Maria o foi."

Hoje vi algo bem semelhante na televisão. Ao comentarem acerca dos eventos representados na peça "a paixão de Cristo", certas pessoas disseram algo assim: "Assim como Jesus se entregou a Deus e morreu, precisamos também dar o nosso tudo para Ele."

Você notou o ponto que quero destacar? As pessoas não estão se preocupando em estudar como se deu o fato narrado pela Bíblia na época da Bíblia, e sim em meramente como "seria" se fosse hoje (e conosco). Portanto, precisamos nos lembrar de que quando lemos a narração de Lucas acerca do Nascimento de Jesus, por exemplo, José e Maria tiveram de lidar verdadeiramente com esse milagre de Deus: Maria, porque era virgem e mesmo assim conceberia o Filho de Deus, pela ação do Espírito Santo; José, porque era justo e não queria infamar a sua futura esposa. São duas pessoas reais que tiveram de lidar com isso. Nós, entretanto, não temos de lidar com essa experiência da mesma maneira. Deus não irá escolher nenhuma virgem de nosso tempo para ser a mãe do Messias. Tal fato já aconteceu há mais de dois mil anos. 

Quanto à morte de Jesus - o outro exemplo que citei acima - o número de problemas de interpretação são ainda maiores. Muitos dizem "que lindo exemplo", "um amor verdadeiro que devemos imitar" e coisas afins. Mas a morte de Jesus foi um evento único na história. A morte de Cristo foi um sacríficio santo diante do Deus santo em favor de pecadores indignos, os quais são amados pelo próprio Deus santo que enviou Seu Filho ao mundo. Como lemos em João 3.16: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna". Nem eu nem você podemos fazer o mesmo. Somos pecadores, não podemos pagar a nossa dívida diante de Deus por nossos próprios esforços.

2) A história bíblica trata de fatos históricos que tem tudo a ver conosco.

Entender os fatos históricos da Bíblia em seus devidos contextos não implica em dizer que nós não temos nada a ver com isso. Pelo contrário, todos eles tem tudo a ver conosco (e com nossa eternidade). Agora precisamos tomar o devido cuidado para entendermos como nós nos relacionamos com tais eventos.

Ao invés de pensarmos "como seria se fosse comigo?", devemos pensar "como eu respondo a tal fato?" Ou seja, quando lemos sobre o Nascimento de Jesus nos Evangelhos, estamos lendo sobre a doutrina da Encarnação. Deus se fez homem na Pessoa de Jesus. Jesus era (e é) plenamente Deus e plenamente homem. Nas palavras do apóstolo João: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a Sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade" (Jo 1.14). Portanto, a questão é: você acredita nisso? Quem é Jesus para você? Você se rende ao senhorio dEle? Ou para você Jesus não passa de um grande profeta? Saiba de uma coisa: ou você o considera como o Filho de Deus (o que Ele realmente é) ou como uma pessoa indigna de adoração.

Jesus morreu. Ele sofreu na cruz do calvário para cumprir o seu ministério de Redentor. Ele pagou a dívida de todos aqueles que hão de se achegar a Deus por meio dEle pela fé. Está tudo consumado. E onde você entra nisso tudo? É simples: ou você confia no sacrifício de Jesus e é salvo da ira de Deus unicamente com base nos méritos dEle diante do Pai, ou você permanece debaixo da ira de Deus, de quem você é inimigo se você não está em Cristo. Como bem nos ensina o texto sagrado: "Aquele que crê no Filho tem a vida eterna, mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece" (Jo 3.36).

É dessa forma que precisamos lidar com o texto bíblico. Pois ele não trata de meras figuras do que devemos fazer. É claro que temos muito a aprender com Adão, Eva, Noé, Abraão, José, Davi, Salomão, Jó e inúmeros outros homens e mulheres cujas vidas estão registradas nas Sagradas Escrituras. Mas lembremo-nos: cada um deles viveu o que está escrito Nelas.

Concluo este breve texto com as inspiradas palavras do autor de Hebreus:

"Portanto, nós também, pois, que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia e corramos, com paciência, a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus" (Hb 12.1,2).

Que Deus seja glorificado.  

Devocional: Viva a Vida Real

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“Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união!” (Sl 133.1)

A Palavra de Deus é maravilhosa. É por meio dela que o Senhor nos revela a Sua vontade e nos instrui de que modo devemos viver. Portanto, oro a Deus a fim de que Ele nos abençoe nesta breve meditação.

No texto em destaque, as palavras “vivam” e “união” me chamam bastante a atenção. Porquanto, sem sombra de dúvidas, estas pequenas palavras se relacionam com um dos grandes desafios em nosso tempo: viver.

De fato, não é fácil viver em nossos dias – pelo menos não como a Bíblia nos prescreve: em união, verdadeiramente. Construir relacionamentos genuínos e profundos é uma grande dificuldade na era do Facebook, Whatsapp, Candy Crush e inúmeras outras coisas que a internet e nossos celulares podem nos oferecer. A velocidade que adquirimos para nos comunicarmos, infelizmente, reduziu drasticamente a qualidade afetiva de nossa comunicação com as pessoas que nos cercam.

Na web, a nossa vida é incrível. As fotos que postamos na timeline são somente as que apresentam nossos melhores momentos. Os nossos amigos, além de serem quase que incontáveis, são sempre os “bests” e tudo o que imaginarmos para escrevermos após um hashtag (#). E o amor? É raro não vermos namorados ou casais em suas maiores declarações em relação a mais um mês de namoro ou casamento.

Entretanto, essa não é a vida real. Pois nem sempre estamos em nossos melhores momentos; muitas vezes nos passeios que registramos na rede social como “#melhorpasseio#bestsforever”, quase não conversamos sobre assuntos de fato importantes; e, para tristeza nossa, às vezes deixamos de declarar nosso amor à namorada ou esposa por meio de gestos simples, como ouvi-la com atenção, honrar o horário de nossos compromissos e expor nossos sentimentos – com os olhos fitos nos dela.

A internet tende a nos levar a uma vida mecânica em que facilmente nos compadecemos da situação do nosso próximo e dizemos que oraremos por ele – embora muitas vezes esqueçamos de fazê-lo de fato. Além disso, tal mecanicidade afeta inclusive nosso relacionamento com Deus, porquanto compartihamos inúmeros posts com dizeres cristão enquanto que às vezes, na nossa privacidade, o nosso tempo com Deus por meio da leitura bíblica e da oração é pouco ou quase nenhum.

A vida real, no entanto, concedida a nós pela graça de Deus, é espontânea e cheia de emoções e riscos. Enquanto que é fácil usar o teclado do computador para declaramos nosso amor a familiares e amigos; na vida real, o amor só é possível a partir do gastar de tempo juntos, da exposição de coisas pessoais – por exemplo, segredos que provavelmente serão compartihados com terceiros por meio de seu amigo – e da vitória sobre a timidez de até mesmo dizer “oi” para o outro (mesmo que na internet pareçamos as pessoas mais comunicativas do mundo). 

Diferentemente da realidade virtual, nossos relacionamentos envolvem sentimentos reais, de maneira que podemos alegrar ou entristecer uns aos outros e necessitamos vencer o orgulho para pedir perdão por nossos erros, de modo pessoal e genuíno – não via bate-papo do Facebook. E quanto ao amor, nossos melhores momentos com nossas respectivas namoradas, noivas ou esposas não devem estar na timeline, onde qualquer um pode ver, mas sim em nosso coração, em que guardamos aquela conversa singela e especial no silêncio de nossa privacidade. Embora não seja pecado homenagearmos, na rede social, as pessoas que amamos, não podemos permitir que nossos melhores momentos estejam lá.

Que Deus nos ajude a viver a vida real. Que gastemos menos tempo na internet e mais tempo com nossa família, amigos e irmãos em Cristo. Pois somente desta forma poderemos experimentar a bênção cantada pelo salmista: “Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união!” (Sl 133.1)

Que Deus seja glorificado.

Os Dez mandamentos e as visões teológicas acerca da Lei. (Subsídio para a Lição Bíblica)

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Neste trimestre, a revista Lições Bíblicas da CPAD abordará o ensino dos Dez Mandamentos, sendo que há duas lições introdutórias acerca do Pentateuco e acerca da relação entre Lei e Graça. A revista tem comentarista o teólogo Esequias Soares, respeitado erudito assembleiano.

É importante ressaltar que o estudo dos dez mandamentos, em especial a do papel da Lei de Deus para o crente hoje já foi foco de inúmeros debates, e por mais que não pareça, há diferentes visões dentro do mundo evangélico conservador acerca da relação do crente e da Lei de Moisés (o que também inclui os dez mandamentos). Esse artigo visa elencar as principais visões teológicas de maneira sucinta e não exaustiva, visando fornecer um subsídio auxiliar para as lições 1 e 2 desse novo trimestre. Há outras obras que tratam com mais detalhes as diferentes linhas teológicas acerca do papel da Lei em relação a graça que o leitor pode pesquisar com afinco (1). Vejamos, então, os pontos de vista propriamente ditos:

1. A Perspectiva Luterana: Lutero tinha uma visão bem peculiar acerca da relação entre a Lei, e o Evangelho, sendo que praticamente formulou seu sistema de teologia em um contraste da Lei e Evangelho, influenciado pela soteriologia apresentada pelo apóstolo Paulo na Epístola aos Romanos. Para Lutero, a Lei era santa e boa, porém demanda algo que o ser humano comum não pode exercer: boas obras perfeitas. Portanto, o propósito doador da Lei não era visando simplesmente a santificação, mas como um instrumento para humilhar o ser humano pecador, manifestando assim, o seu pecado, deixando-o sem saída e assim, apontando para Cristo, a ser recebido pela fé. Assim, vemos que no âmago de seu pensamento, existe a questão da doutrina da Justificação pela Fé, tão preciosa para Lutero.  Mas então, como fica a questão das boas obras e dos dez mandamentos? No pensamento Luterano o cristão não está mais sobre Moisés, logo, ele não está mais debaixo da Lei, pois isso implicaria estar debaixo da maldição da Lei de Moisés, mas sob a Lei de Cristo (Cf. Gl 5.18; Rm 6.14,15; 1 Co 9.20). O Cristão, portanto não é responsável a obedecer a Lei de Moisés de maneira imediata, porque sua forma e estrutura foram dados para o povo de Israel, mas sim a Lei eterna de Deus como expressa por Cristo e pelos apóstolos, debaixo da orientação do Espírito Santo (sendo que muita da Lei de Moisés é incluída na Lei de Cristo). Com isso, não se rejeita os Dez mandamentos, mas se pensa nestes como um reflexo que contém princípios válidos para o crente atual, pois refletem a Lei eterna de Deus. O próprio Lutero diz em seu Catecismo Maior que "quem entende os Dez Mandamentos bem e por completo entende a escritura inteira, de modo  que pode aconselhar, ajudar, confortar, julgar e decidir em todas as questões, tanto no plano espiritual quanto temporal, podendo ser juiz sobre doutrinas, classes sociais e profissionais, espíritos, na área do direito e do que mais exista no mundo" (2). Um dos grandes defensores dessa abordagem na atualidade, com algumas modificações, é o teólogo Douglas Moo(3).

2. A Perspectiva Reformada: Diferentemente de Lutero, Calvino não formulou seu sistema nem dividiu os testamentos entre Lei e Evangelho, mas via uma continuidade entre a Lei de Moisés, em especial aos dez mandamentos, e o evangelho, pois tanto a entrega da Lei de Deus no Sinai e o ensino do Senhor Jesus foram dados dentro do mesmo escopo da Aliança, a Aliança da Graça, sendo que o Evangelho é o pico dessa aliança. A evidência entre a continuidade essencial entre a lei e o evangelho é porque tanto no período da entrega da Lei houve antes redenção (Cf. Êx 20.2), quanto no tempo da graça houve Lei (Tg 1.25; 2.12), o próprio Paulo não anulou a Lei (Rm 3.31). Portanto, a Lei moral de Deus não foi simplesmente expressa na dispensação do antigo concerto, nem tampouco é uma das expressões da Lei moral eterna de Deus para uma nação específica, mas é em seu conteúdo moral, A própria Lei de Deus expressa de maneira clara nos Dez mandamentos. Não se quer dizer com isso que não houve descontinuidade, pois a lei possui três aspectos: o aspecto moral, que é o cerne da Lei e expresso nos Dez mandamentos, os aspectos cerimonial e civil são expressões da Lei de Deus quanto a situação específica da comunidade de Israel, e possuem princípios importantes, mas não necessitam ser aplicados em sua totalidade nem diretamente pelos crentes atuais, ao contrário da Lei moral(4). O teólogo reformado Philip Ryken afirma: "Ainda devemos guardar a Lei hoje? Claro que devemos! Como a Bíblia demonstra do começo ao fim, os Dez Mandamentos nos mostram a maneira certa de viver. Estão fundamentados na justiça de Deus, o que explica porque mesmo o Novo Testamento tem tantas coisas positivas sobre a lei de Deus...como crentes em Jesus Cristo, ainda precisamos guardar a Lei de Deus? precisamos. A lei moral expressa a vontade perfeita e justa de Deus para a nossa vida. Jesus, então, nos ordena que a guardemos, não como uma maneira de ficarmos bem com Deus, mas como forma de agradarmos a Deus, que nos corrigiu com Ele" (5). O célebre teólogo reformado Ernest Kevan ainda é mais enfático: "A Lei de Moisés é nada menos do que a Lei de Cristo"(6). A perspectiva reformada é endossada por muitos cristãos como presbiterianos e batistas. Essa visão é essencialmente a mesma dos grupos arminianos e arminianos/wesleyanos, com a diferença é que este últimos possui mais as ênfases de santidade de Wesley, onde focaliza a motivação e o amor no servir a Deus.

3.A Perspectiva Dispensacionalista: A perspectiva dispensacionalista de certa forma retoma o pensamento luterano, pois encontra muitos pontos de apoio com este no que tange ao papel da Lei inclusive esboçando argumentos semelhantes, porém com elementos distintos devido a sistema teológico: o elemento básico e fundamental da teologia dispensacionalista é diferença entre Israel e a igreja. Charles Ryrie diz que esta "é a prova teológica mais básica de uma pessoa ser ou não dispensacionalista, e sem dúvida é a mais prática e conclusiva"(7) Ao contrario do que prega a teologia reformada, israel não se constitui a igreja do Antigo Testamento, mas sim o povo de Deus em uma dispensação própria, com regulamentações distintas da igreja, que era o mistério de Deus que foi revelado somente na dispensação presente (Ef 1.9-13), um povo que congrega tanto judeus como gentios. Por isso, a Lei de Moisés (incluindo sua forma nos dez mandamentos) foram entregues sobre a vigência do Pacto feito com os israelitas, pacto este que foi quebrado por eles que falharam em ser governados pela Lei. O crente na atual dispensação não é mais guiado pela Lei, mas pela graça de Deus em Cristo na dispensação atual. Não se quer dizer com isso que não havia graça no At nem que  a salvação fosse pelas obras na antiga dispensação, mas como afirma Ryrie:"as Escrituras dizem que sua vinda [de Cristo] demonstrou a graça de Deus com tamanha magnitude que todas as demonstrações anteriores eram como se nada fossem", e acrescenta:  " a lei deveria conduzir os israelitas a Cristo. No cumprimento desses propósitos pelos quais foi dada a Lei, a graça não foi, e para os propósitos a lei foi 'acrescentada ao lado' da promessa a fim de desenvolver o relacionamento de Israel com Deus naquele tempo" (8).   

Algo comumente afirmado por teólogos não dispensacionais é que  o dispensacionalismo ensina duas formas de salvação, algo definido como mito por Wayne Strickland: "é importante observar que o dispensacionalismo nunca  defenderam a posição que há dois caminhos de salvação: a lei mosaica para as pessoas do At e a fé para as pessoas do NT"(9). O que há na verdade são duas dispensações, uma onde o povo de Deus é guiado pela Lei de Moisés, essa dispensação e a lei de Moisés findam quando Cristo veio, e agora, o cristão é guiado pela Lei de Cristo, que encontra correspondência  na lei de Moisés por estar refletida na vontade soberana de Deus. A Lei de Moisés é unificada, não podendo, portanto, ser dividida em categorias. Aqui o pensamento dispensacional encontra reflexo no pensamento Luterano. A diferença, é que para os dispensacionalistas em sua maioria, o milênio vindouro apresentará novamente elementos da Lei mosaica, como o sacrifício de animais (embora de maneira memorial), pois ali Deus estará cumprindo suas promessas no que tange a nação de Israel. Essa visão é adotada por várias denominações que seguem uma escatologia dispensacionalista, como muitas igrejas batistas, congregacionais, dos irmãos e pentecostais.

Basicamente, estas são as três visões principais endossadas pelos cristão evangélicos. No contexto assembleiano, era muito comum uma forma de dispensacionalismo popular acerca da Lei, dizendo que hoje estaríamos no tempo da graça, sendo salvos pela fé (ainda que, de maneira interessante, não desestimulasse a santidade e até mesmo não impediu o legalismo). Hoje tal visão desvaeceu e existe em pequenos nichos. Todavia, a assembleia de Deus mantém uma perspectiva da santificação bem semelhante a reformada, porém no que tange ao papel da Lei, encontra-se dividida, sendo porém sua maioria possui uma visão dispensacionalista, visão esta que é adotada pelo comentarista da revista. Porém, uma estrutura reformada no meio assembleiano parece ter recebido ênfase maior na denominação, algo que se dá pelo fato de sempre haver um considerável reverência pelos dez mandamentos no meio assembleiano. Talvez ambas as visões compartilhem espaço no meio pentecostal. Independentemente disso, é interessante se aprofundar nestas questões, visando aperfeiçoar nossa visão bíblica acerca da obediência a Lei de Deus em nossos dias, que deve ser o desejo de todo aquele que segue e ama genuinamente o Senhor (Salmo 1.1-2).

Soli Deo Gloria

Notas:

1. Uma excelente obra ainda disponível em livrarias é "Lei e Evangelho: Cinco pontos de Vista", publicada pela Editora Vida.
2.LUTERO, Martim. Catecismo Maior. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2012. p. 26.
3. Douglas Moo é um renomado teólogo Luterano conservador, é um dos contribuidores da obra Lei e Evangelho, anteriormente citada. Moo também escreveu um artigo falando acerca da descontinuidade da Lei e Evangelho na obra "Continuidade e Descontinuidade: perspectivas sobre o relacionamento do Antigo e Novo Testamento", publicada pela editora Hagnos.
4. Alguns teólogos reformados defendem a validade da Lei civil na sociedade hoje, ainda que mediada por Cristo. Eles são conhecidos como teonomistas ou reconstrucionistas. Desse grupo se destacaram Greg Bahnsen (falecido em 1995) e Rousas Rooshdoony (falecido em 2001) . Na atualidade, Kenneth Gentry é um defensor de destaque.
5. RYKEN, Philip Graham. Os Dez mandamentos para os Dias de Hoje. Rio de janeiro: CPAD, 2014. p. 21.
6. KEVAN, Ernest. A Lei Moral. São Paulo: Os Puritanos, 2000, p. 7.
7. RYRIE, Charles C. Dispensacionalismo: ajuda ou heresia?. Mogi das Cruzes: ABECAR, 2004. p.49.
8. Ibid.  p. 67, 133.
9. GUNDRY, Stalney (org). Lei e Evangelho: 5 pontos de Vista. 2° ed. São Paulo: Editora Vida, 2013.p. 255.

GQL 2014: "Combate o bom combate da fé".

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A noite estava tranquila e movimentada para o horário, cerca de 21:30, quando andávamos pelos quarteirões de Belém. A conversa que tive com o irmão da igreja estava tranquila e agradável, e quando chegamos em casa, que não ficava muito distante da dele, a conversa se estendeu. Naquela noite, eu e Nilton Rodolfo conseguimos interagir mais, e finalmente, uma amizade realmente sólida começara a surgir, pois até então minhas idas aos cultos da missão com adolescentes se resumiam a breves conversas e participação nos cultos. Isso completará 10 anos em 2015, quando após isso surgiram outros amigos como Renan Diniz, Carlos Eduardo e Janyson Costa.

De lá para cá, não há como contar as inúmeras bençãos que foram derramadas por Deus em nossas vidas e ministério, assim também como a força para continuar continuando mesmo em meio a lutas e desafios enfrentados. Hoje, continuamos nosso ministério em uma pequena congregação local e dos desafios que esta apresenta. Por vezes, temos a pensar que os desafios são maiores em uma mega-igreja, onde há milhares reunidos, por vezes de maneira superficial. Porém, o desafio muitas vezes é maior quando lidamos com pessoas frente a  frente, onde conhecemos mais de suas vidas, seus medos e dificuldades. É ali que somos forjados ministerialmente, e de uma maneira singular, em 2014 isso cada vez mais se consolidou. Neste ano, realizamos mais uma Conferência Graphe, que contou com a participação de Gutierres Siqueira, amado irmão do blog Teologia Pentecostal, blog que surgira um pouco antes do GQL e que neste ano tive a oportunidade de escrever artigos relacionados a fé pentecostal. Por certo o maior desafio enfrentado por mim neste ano foi a perda de minha tia, o que muito entristeceu minha mãe e a família. Eu nunca havia dado uma palavra em um momento como esse, nunca esperei que falaria justamente no momento de despedida de minha tia.

Neste ano também vimos o mundo cristão ortodoxo ficar mais órfão; três grandes teólogos, de tradições distintas, partiram para a glória celestial, Gerard Van Groningen (reformado), Dwight Pentecost (dispensacionalista) e o célebre Stanley Horton (pentecostal). Todos com avançada idade (Groningen com 93, Horton com 98 e Pentecost  com 99), todos há muitos anos combatendo por Cristo, agora esperam a recompensa e a ressurreição dos mortos.

A igreja em Éfeso certamente não era uma igreja tão pequena, mas certamente havia uma congregação própria, onde Timóteo deveria lidar com os problemas que cercam um ministério cristão. Em sua primeira epístola, Paulo exorta seu filho na fé a militar boa milícia (1 Tm 1.18), a lidar com os mais variados problemas e dificuldades como um bom soldado do exército de Cristo. Com isso, Timóteo deveria orar (1 Tm 2.2); orientar as irmãs em Cristo (1 Tm 2.9), analisar os futuros líderes (capítulo 3), e permanecer firme e diligente em seu ministério (cap. 4), além de outras importantes atividades ministeriais, que Timóteo deveria cumprir para seu ministério ser legítimo e proveitoso diante de todos em Éfeso (cap. 4.15).

Certamente é dever de todo o crente combater o bom combate da fé, lutar em uma guerra espiritual contra tudo o que guerreia contra a alma. Como acertadamente diz J. C. Ryle em sua Magnum Opus, Santidade: 

"Somente um cristão verdadeiro realiza o trabalho de um soldado. Apenas ele enfrenta diretamente os inimigos de sua alma; e realmente luta com eles e os vence".

 O "bom combate" é bom por seu resultado. Quando lutamos, lutamos por Cristo, quando vencemos, vencemos pela graça de Cristo.

Nossa oração é que possamos continuar avançando, continuar continuando, crescendo na graça e no conhecimento de Cristo, cumprindo bem nosso ministério. Combatendo o bom combate da fé pela graça de Deus, nosso amado Pai, no poder do Espírito, nosso consolador.

Que o nome de Nosso Senhor Jesus seja glorificado!

Um feliz 2015 a todos!

Soli Deo Gloria

O Natal Acontece a Cada Conversão?

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"Ora o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo" (Mateus 1.18).

Em nossos  dias o período natalino gira em torno de compras, vendas, papai noel, boas ações e coisas afins. Diante disso, muitos têm se esforçado para que as pessoas retornem ao sentido genuíno do natal: o nascimento de Cristo Jesus. É por isso que vemos cantatas e pregações natalinas em muitas igrejas. Entretanto, mesmo nos eventos realizados em congregações cristãs, deparamo-nos com alguns ensinos problemáticos acerca do natal. Neste texto, gostaria de tratar sobre um pensamento equivocado que ouço há muito tempo, a fim de que não caiamos em erro - mesmo que seja inconscientemente.

Ao fim de cantatas de natal é comum ouvirmos a seguinte frase: "lembrem-se, o natal acontece todas as vezes que Jesus nasce no nosso coração" - ou algo semelhante. Particularmente, eu já ouvi tal ideia inúmeras vezes. Entretanto, seria bíblico pensar dessa maneira? Podemos falar de não somente de um natal, mas de tantos quantos forem os cristãos no mundo inteiro?

Pela Palavra de Deus, vemos que conceber o natal desse modo é errado. Notemos a objetividade da revelação bíblica nas palavras de Mateus: "Ora o nascimento de Jesus Cristo foi assim..." Tal simplicidade em narrar o acontecimento do nascimento de Jesus Cristo é de fundamental importância para a nossa breve análise. Porque a narração feita por Mateus demonstra que o natal é um fato histórico; sendo, portanto, objetivo e único. Ou seja, "vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei" [1]; "e o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade" [2] são fatos que ocorreram na história apenas uma vez. Dessa forma, embora Cristo Jesus não tenha nascido no dia 25 de dezembro, é importante sim que comemoremos o natal. Porque Deus o Pai enviou Seu Filho Unigênito a este mundo e o Filho encarnou e habitou entre nós, pela concepção miraculosa no ventre da virgem Maria operada pelo Espírito Santo, em um dia definido e certo.

Diante disso, entendemos que a objetividade e a historicidade do natal estão intimamente relacionadas à nossa fé. Porquanto, se a nossa fé descansasse em algum tipo de subjetividade ela seria tão duvidosa quanto o seu fundamento. Mas, graças a Deus pelo natal. Graças a Deus por ser fiel. Pois no tempo certo da história, pôde-se ouvir tamanha maravilha: "Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo, pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor" [3].

Além da subjetividade que a ideia de "natal é quando Jesus nasce no nosso coração" traz, outro problema é a imaturidade acerca da Pessoa de Cristo. Não podemos achar que o menino Jesus nascerá em nosso coração, amadurecerá e se desenvolverá em nós à medida que crescermos na fé. Isto é bobagem. Jesus Cristo não é mais um menino; Ele já cresceu e está à destra do Pai nas alturas [4]. 

Outra questão, também, é sobre a confusão entre natal e conversão. Sinceramente, penso que muitos irmãos que usam a frase sob análise neste texto querem enfatizar, mesmo que inadequadamente, a relevância do natal para o evangelismo e a conversão a Cristo. Então, aprendamos com a Bíblia que o natal não ocorre a cada conversão, e sim que, por causa do natal, o novo nascimento (regeneração), evidenciado na genuína conversão a Deus é plenamente possível. Nas palavras do apóstolo João:

"Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus: aos que creem no seu nome" [5].

Desejo a todos os leitores deste blog um abençoado natal. Que Deus os abençoe na Pessoa do Deus-Homem, o Senhor Jesus Cristo.

Que Deus seja glorificado.

Notas:
[1] Gl 4.4.
[2] Jo 1.14.
[3] Lc 2.10,11.
[4] Mc 16. 19.
[5] Jo 1.11-12.

Concebido pelo Espírito: O Maravilhoso Nascimento do Filho de Davi

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"O nascimento de cada criança é um evento maravilhoso; traz a existência uma alma que jamais morrerá. Mas, desde que há mundo, jamais houve nascimento tão maravilhoso quanto o de Jesus".

J. C. Ryle, Meditações no Evangelho de  Lucas


Muitos crentes se perguntam acerca da relevância das genealogias. Muitos outros, em sua leitura devocional, passam por cima das genealogias no livro de Crônicas e em outras passagens. Todavia, os crentes bem sabem que tudo o que está escrito foi escrito tendo em vista nosso bem espiritual (Rm 15.4). As genealogias bíblicas relatam algo importante: A ação de Deus ocorre na história, no tempo e no espaço. A Bíblia é um livro fincado na história, e não meramente um relato lendário, sobre algo que é alheio a realidade objetiva e confinado a uma experiência religiosa subjetiva. No nascimento de Nosso Senhor, isso se reveste de importância especial. Dos quatro evangelhos, o de Mateus e Lucas apresentam as genealogias de Cristo, sendo que ambas se situam em um contexto importantíssimo: Ambas são de um homem que nasceu de forma extraordinária, do homem que nasceu de uma virgem.

No evangelho de Mateus, as palavras introdutórias são:

"Livro da Geração de Jesus Cristo, Filho de Davi, Filho de Abraão" (Mt 1.1).

Com isso, o apóstolo procura estabelecer  as credenciais de Jesus,ele é descendente do rei Davi, ele é igualmente descendente de Abraão. Em Abraão se tem a promessa que todas as famílias da terra seriam abençoadas através de sua semente (Gn 28.14). Em Davi, temos a promessa que sua descendência ficaria para sempre no trono e que seu domínio seria eterno e sobre toda  a terra (2 Samuel 7.26-29; 23. 1-4). Jesus faz parte, portanto, da linhagem messiânica-real, da promessa de Deus. Porém Mateus prossegue:

"Abraão gerou a Isaque, Isaque Gerou a Jacó.."(Mt 1.2)

Segue-se, então uma linha de gerações, sendo passando por Davi, salomão e outros herdeiros ao trono. Até por fim chegar em "José, marido de Maria, de maria, da qual nasceu Jesus, que se chama O Cristo" (Mt 1.17).

Há algo surpreendente aqui. Mateus não diz que  José gerou a a Jesus, mas apenas que fora marido de Maria, de quem nasceu Jesus, sendo que ele é chamado por Mateus de forma muito clara: O Messias. Mateus claramente mostra que Jesus não nasceu de maneira natural pelo versículo seguinte, onde Maria acha-se ter concebido pelo Espírito Santo (vrs 18). Não há espaço para mitologia aqui, nem tampouco há o mínimo espaço para a visão muçulmana que houve uma coabitação. D. A. Carson esclarece:

"Não há nenhum indício de deidade pagã humana pagã copulando em termos grosseiramente físicos. Ao contrário, o poder do Senhor, manifesto no Espírito que se esperava fosse ativo na era messiânica, realizou milagrosamente a concepção"(1).

No evangelho de Lucas, fica claro maria concebe pelo poder do Espírito (Lc 1.31-35). José, na época noivo, sendo um justo, não poderia casar com Maria, porém em sonho, um anjo do Senhor dissipa toda a dúvida existente, dando uma revelação surpreendente a José, filho de Davi:

"Não temas receber Maria, por tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo" (vrs 21).

Mateus apresenta uma cadeia de gerações, Abraão Gerou a Isaque, Isaque a Jacó, passa-se então por Judá, de onde será depois Gerado Davi até José. Porém, A palavra do anjo é clara: " o que nela está gerado é do Espírito Santo". O que na virgem está gerado não vem simplesmente através de José; não  é por simples geração humana, ele vem de Deus, pela intervenção de Deus. É dito a José qual nome deve dar ao menino: JESUS (do hebraico Josué: Jeová é a salvação), porque "salvará o seu povo dos seus pecados" (vrs 21). Tudo isso acontece para cumprir a profecia de Isaías. Mateus claramente declara um aspecto importante acerca de Jesus, ele é homem,que possui uma missão de salvação, como muito bem testifica o Senhor Jesus diante de Pilatos: "eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, para dar testemunho da Verdade, todo aquele que é da verdade ouve a minha voz" (Jo 18.37). Ele é a própria verdade que nos leva até o Pai. Ele também é de Deus, ele mesmo é "Emanuel", que significa: "Deus conosco" (vrs 23). No dizer de Joseph Ratzinger: 

"José é juridicamente o pai de Jesus. Por meio dele, Jesus pertence segundo a Lei, 'legalmente', à tribo de Davi. E, todavia, vem de outro lugar, 'do alto': do próprio Deus...sua origem é determinável e, todavia, permanece um mistério. Só Deus é o seu Pai em sentido próprio"(2).

Não se que dizer com isso que Jesus não seja da descendência de Davi segundo a carne, pois tanto Lucas quanto o apóstolo Paulo testificam desta verdade (Lc 1.32; Rm 1.3-4), sendo portanto Maria descendente de Davi, mas não da linhagem real, que provém legalmente através de José. Portanto, Jesus é filho de Davi, tanto por direito quanto de fato, porém ele é tanto filho de Davi quanto maior que Davi. Na narrativa de Mateus, essas duas verdades se beijam nos capítulo subsequente: Jesus nasce em Belém. Ele é da tribo de Judá, ele é a raiz de Davi, ele é o herdeiro do trono, porém é mais do isso, pois como nos diz Miquéias:

"E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade" (Mq 5.2).

Ele é algo que nunca chegaremos a compreender plenamente. Ele é o Deus eterno, que se manifestou em carne (1 Tm 3.16), ele é Maravilhoso (Is 9.6).  Por fim, isso nos leva a profundas verdades:

O menino que nasceu é Rei: Ele é o cumprimento da promessa de Deus a Davi, ele é o herdeiro do trono, a ele pertence um domínio eterno. Ninguém é como Cristo.

O menino que nasceu veio para nos libertar: Ele é a verdade, e quando o conhecemos, estamos livres para adorar a Deus em espírito e em verdade.

O menino que nasceu nos libertou dos nossos pecados: Na cruz, Jesus foi o cumprimento perfeito de Isaías 53, o servo do Senhor, que morre em favor de seu povo, mas ressuscita para ver a sua posteridade: todos aqueles que se chegam a Deus através dele (Hb 2.12-13).

O menino que nasceu é Deus: Jesus é o verbo que se fez carne (Jo 1.1), que tabernaculou entre nós, nele podemos ter acesso a Deus, e contemplar a face de Deus, pois ele é Emanuel "Deus conosco".

Diante disso, a pergunta feita por Pilatos: "quem és tu?", é respondida. Ele é o messias, o salvador, o Rei, a quem nos devemos crer, depositar nossa esperança, sabendo que através dele temos paz com Deus e temos seu amor derramado em nossos corações (Rm 5.1,5).

O blog Geração que Lamba deseja um Feliz natal a todos!

Amém!

Soli Deo Gloria

Notas:

CARSON, D. A. O Comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2011. p.100.
RATZINGER, Joseph. A Infância de Jesus. São Paulo: Planeta, 2012. p. 16.
A questão de Maria ser descendente de Davi é reforçada com a posição que a genealogia apresentada por Lucas é a de Maria, o que explica as diferenças existentes com a genealogia de José apresentada em Mateus. Muitos teólogos conservadores possuem a visão de que ambas as genealogias são de José. Todavia, concordo com Thomas e Gundry, que apresentam defendem o ponto de que a genealogia de Lucas é a de maria,  elencando várias razões, dentre elas destaca-se a que afirma: "Visto que Lucas destaca a humanidade de Jesus, sua solidariedade com a raça humana e a universalidade da salvação, é adequado que mostre a humanidade de Jesus ao registrar sua descendência  por meio de sua progenitora humana, Maria. A genealogia de Jesus, então, remonta até Adão". Cf. THOMAS, Robert. GUNDRY, Stanley. Harmonia dos Evangelhos. São paulo: Vida, 2007. p.284.

A Justificação Pela Fé: Uma doutrina Distintamente evangélica.

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Desde o século XVI, o mundo cristão testemunhou um dos maiores rompimentos dentro da igreja católica desde 1054, quando houve a separação entre os cristãos do ocidente (catolicismo romano) e do oriente (ortodoxia oriental). Encabeçada pelo monge alemão Martinho Lutero, a reforma protestante trouxe em seu bojo uma doutrina fundamental: A salvação, que provinha da graça, seria recebida unicamente pela fé em Cristo. No âmbito da igreja medieval, isso mexera com toda a estrutura católica. Lutero a classificou como doutrina fundamental, uma doutrina pela qual a igreja se firma ou cai1Na igreja católica da época de Lutero, as indulgências, os ritos penitenciais e a outros elementos seriam meios para receber e garantir a salvação. Tudo isso tumultuou a vida de Lutero, pois ele reconhecia que não conseguia realmente ser aceito por Deus pelo ato de realizar obras meritórias, nem tampouco a “mediação dos santos” podia fazer algo a respeito. Após estudar profundamente a epístola ao Romanos, e depois Gálatas, as trevas desapareceram, e Lutero pôde entender o que Deus quer não são simplesmente atos externos e uma tentativa de comprar a salvação, mas sim a confiança nos méritos de Cristo, em sua morte e em sua ressurreição. Em outras palavras, a salvação é um dom de Deus, e não algo conquistado pelo esforço humano. Com isso, ocorreu um divisor de águas na teologia, na doutrina e na própria dinâmica da vida cristã.

A Bíblia está repleta de passagens onde mostra que o ser humano por si mesmo nada pode fazer por sua salvação, pois vive em estado de pecado (Cf. Sl 14.1-2; Rm 3.9-12), por isso nossa justiça lhe é repugnante (Cf. Is 64.6). Portanto é Deus que providenciou a salvação humana enviando a seu filho Jesus Cristo, para que todo o que crê não pereça, mas tenha a vida eterna ( Jo 3.16) e somente através d'Ele nos tornamos inocentes diante de Deus2. Contrariando o pensamento vigente na época em que Lutero escreveu suas 95 teses, e que ainda reverbera em muitas mentes, tanto católicas quanto protestantes que o ser humano, de alguma forma, deve se preparar e estar apto para receber a graça3 , a fé protestante evangélica sustenta que o ser humano se encontra no lamaçal do pecado e é Deus que providencia e opera a salvação no coração do homem. As obras não são condições básicas para a salvação. Como diz o teólogo Norman Geisler: “Se a salvação não fosse unicamente por fé, toda a mensagem do evangelho de João seria fraudulenta...Quando lhe perguntaram: 'Que faremos para executarmos as obras de Deus?' Jesus respondeu: 'a obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou' (Jo 6.29). Simplesmente falando, não existe mais nada que possamos fazer para a nossa justificação – Jesus já fez tudo (Jo 19.31)”4 .

Com isso, vemos que a Justificação pela fé (Sola fide) é algo a ser depositado unicamente em Cristo como único mediador entre Deus e os homens (Solus Christus - 1 Tm 2.5), com isso toda a mediação dos santos cai igualmente por terra. Portanto, a doutrina da justificação pela fé dá o entendimento necessário adequado do que é ser um protestante e evangélico. Isso nos diferencia tanto histórica quanto teológica e doutrinariamente. Em dias de ecumenismo religioso pueril, onde muitos que ostentam o nome “protestante” devem lembrar realmente dos fundamentos da Reforma e da fé evangélica. Não há como classificar de genuinamente evangélica uma doutrina de fé que adiciona algo ao evangelho de Cristo (Gl 1.8). Desviar-se da doutrina da justificação pela fé é indubitavelmente afastar-se da própria verdade cristã.

Notas:

1 OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. Tr. Gordon Chow. São Paulo: Editora Vida, 2001.p. 399.

2 A palavra “justificar” (do gregro \”dikaio”), significa, basicamente ,”tornar justo”.

3 Uma interessante análise sobre isso se encontra em RUPP, E. Gordon. WATSON, Philip S(ORG). Lutero e Erasmo: Livre arbítrio e Salvação. Tr. Nélio Schineider. São Paulo: Editora Reflexão, 2014.

4 GEISLER, Norman. Teologia Sistemática – volume 2.Tr. Marcelo Gonçalves e Degmar Ribas. Rio De Janeiro: CPAD, 2010. p.236.

"Porque nós não somos, como muitos, falsificadores da palavra de Deus; antes, falamos de Cristo com sinceridade, como de Deus na presença de Deus... não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus... E Temos, portanto, o mesmo espirito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nós cremos também, por isso também falamos. Sabendo que o que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também por Jesus, e nos apresentará convosco"

2 Coríntios 2:17; 3:5; 4:13-14