O Deus dos Vivos: Uma análise bíblico-teológica acerca da vida após a morte.

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                             Imagem:  A Ressurreição de Lázaro (por James Tissot)




"hÆyüxÇyáh rebÆFg tûmÃy-£i'

"Morrendo o homem, porventura tornará a viver?" (Jó 14:14).

"Qeoj de ouk estin nekrwn( alla
zwntwn¾pantej gar autw zwsin"

"Ora, Deus não é Deus de mortos,mas de vivos.
 Todos pois, para Ele, estão vivos" (Lc 20:38).


Um dos assuntos que mais assusta a mente humana se dá no que se refere a vida após a morte.  A "clássica" e  angustiante pergunta de Jó, feita em seu leito de desespero certamente já foi compartilhada pelas mais variadas mentes no decorrer da história. Em escatologia, um dos assuntos em geral pouco abordados é acerca da doutrina  do estado intermediário, da condição dos que morreram em Cristo e dos ímpios antes da volta de Jesus.  Tal fenômeno é compreensível, pois, no dizer de Stanley Horton (Nosso Destino, p.37); "A Palavra de Deus...pouco revela acerca da vida após a morte...está mais preocupada em nós mostrar como viver de modo agradável a Deus aqui nesta terra. Deus quer que estejamos preparados para a volta de Jesus e as glórias que se seguirão". A afirmativa de Horton é totalmente bíblica. A Bíblia nos mostra que a esperança última do crente não é em estar em um bom lugar com Deus depois da morte, ainda que, segundo Paulo, seja algo extremamente prazeroso e muito melhor do que nossa condição atual nesta vida, (Fp 1:23), mas sim da ressurreição do corpo e glória eterna com Ele. De maneira sábia e conhecendo a vã curiosidade humana, o Senhor só revelou o necessário no que tange a esse período, porém, é importante ressaltar, essa revelação veio de maneira clara e inequívoca: os que morreram ainda vivem.

A resposta do Senhor Jesus, ao ser indagado pelos saduceus em Lucas 20 é clara e interessantíssima. Os saduceus, crendo que não havia ressurreição, tentam apanhar Jesus através de uma historieta e tendo como base a teologia do Pentateuco (que era os únicos livros para eles tidos como canônicos), que aparentemente não falava acerca da Ressurreição dos mortos. A resposta de Cristo é impactante: "errais por não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus" (Mt 22:29). Ao responder o enigma teológico, Jesus prova a ressurreição através das palavras de Deus, escritas por Moisés em Êxodo 3:6/15, na qual Deus afirma que era o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. O Senhor na ocasião não se apresentou a Moisés como o Deus que se revelara aos patriarcas muitos anos atrás, mas como o próprio Deus destes, dando a entender que mesmo passados muitos anos depois de sua morte, Ele continuava sendo o seu Deus, e igualmente os santos estavam vivos diante dele. O foco de Cristo aqui  certamente não é o estado intermediário, mas a ressurreição futura, porém a comparação feita por nosso Senhor da vida humana com a existência de anjos, que eram espíritos imortais, claramente mostra igualmente a existência  imaterial e imortal da alma. O Deus que se revelou aos patriarcas continuava sendo o seu Deus e continuava cuidando deles, sendo que um dia providenciaria a sua ressurreição. Tal resposta, de tão bem dada, fez até mesmo os escribas (provavelmente associados aos fariseus) "vibrarem" e elogiarem a Cristo (vrs 39).

Há um detalhe importante a ressaltar: nosso Senhor mostra que já no Pentateuco a esperança da ressurreição é sugerida. Sendo assim, uma reflexão bíblica a partir dos postulados de Nosso Senhor é de suma importância para termos uma correta visão acerca da doutrina bíblica acerca da vida após a morte, assim também como a ressurreição dos mortos, e até mesmo, para confrontarmos ideias e perspectivas que em geral são aceitas no mundo teológico da atualidade acerca dessa doutrina. O ponto de partida se dá no que o Antigo Testamento diz acerca da esperança futura, depois seguiremos para as afirmativas neotestamentárias.


I) A Esperança Futura no Antigo Testamento.

É comum até hoje nos círculos teológicos liberais verem a visão do estado intermediário, mais comumente conhecido como  Hades no Novo Testamento como uma cópia judaica do Hades grego, dividido em compartimentos entre justos e ímpios.  De acordo com essa visão, o povo de Israel não tinha nenhuma perspectiva acerca da vida após a morte, sendo que o foco vétero-testamentário nada mais se resume a esta vida, sendo que ao homem nada mais restava a não ser descer ao Sheol (hb. mundo dos mortos, sepultura, ou sepulcro). Outros dentro dos círculo liberais creem que o povo de Israel tinha um vago entendimento acerca de uma vida após a morte, sendo que ao morrer, tanto ímpios quanto justos iriam para o (sheol), um lugar sombrio, de quase não-existência, onde os seres humanos não passavam de "fantasmas" ou "espíritos" (hb.  £yi'Apèr - rephaim, cf. Is 14:9, 26:14). Tais visões certamente não fazem jus a visão do Antigo Testamento acerca da esperança futura¹, sendo confrontadas por teólogos conservadores das mais variadas perspectivas confessionais, como veremos a seguir. Dentre as mais variadas respostas ao desafio da teologia histórico-crítica, vejamos algumas a seguir:

Um dos que discordam claramente da perspectiva apresentada pela teologia histórico-crítica é Stanley Horton. Acerca da proposição que os israelitas não tinham nenhuma perspectiva quanto a vida após a morte, Horton afirma que "seria muito estranho e inteiramente contrário a cultura que os cercava. Os egípcios grandes preparações para o que acreditavam que aconteceria na vida após a morte. Também acreditavam num além túmulo". Outro elemento importante é que a perspectiva que não possui um significado da vida após a morte é totalmente estranha a própria característica antropológica do homem, em especial das culturas antigas da humanidade. Todas as religiões antigas possuíam alguma noção ou reflexão sobre uma vida após a morte, como pontua Charles Hodge: "É a crença comum da humanidade, tal como está revelada na Bíblia, e é parte constitutiva da fé da igreja universal, que a alma pode existir e existe, e que age após a morte"². Salomão mesmo afirmou que Deus colocou a eternidade no coração do homem (Ec 3:11), fomos criados para termos um eterno relacionamento com Deus, sendo que a morte é vista com uma interrupção disso é propriamente um inimigo a ser derrotado (1 Co 15: 26). À luz de tudo isso, há realmente indícios no Antigo Testamento de uma esperança após a morte? É necessário atentarmos para algumas palavras-chave e o contexto onde estão inseridas.

a) Nephesh (Alma, vida). É comum pensar no âmbito teológico que a  "alma" nada mais é do que a o ser humano como ser vivo, sem todavia, denotar uma essência imaterial, segundo Hans Walter Wolff , em sua obra clássica Antropologia do Antigo Testamento: "Nepesh deve ser vista... aqui como a figura total do ser humano e especialmente com sua respiração"³. É certo que não devemos possuir uma visão grega(mais propriamente platônica), no qual o corpo e  a alma são extremamente distintos, sendo o primeiro nada mais é do que uma prisão da alma. A Bíblia vê o homem como uma unidade, sendo que a estrutura do homem está completa se possuir um corpo. Paulo afirma que sem o corpo estamos com oque nus (2 Co 5:1-4), ou seja, não estamos completos. Todavia, é comum estudiosos afirmarem que nephesh é utilizada tanto para descrever a vida dos homens quanto dos animais e por isso não aponta, ainda que veladamente, a uma dimensão imaterial do homem, afirmação esta que simplesmente não é sustentável de maneira nenhuma à luz dos textos bíblicos. O nefesh humano, ao contrário dos animais, fora soprado diretamente por Deus (Gn 2:27), seno que ao contrário dos animais, a nephesh humana é a imagem e semelhança de Deus (Gn 1:27, o que também inclui o coro físico . Ainda que simbolicamente associado com o ato de respirar (evidenciando assim, sua existência), há algo muito além de um simples existir animal no termo Nephesh. Gênesis 35:18 diz acerca da morte de Raquel que: "saindo-se-lhe a alma[nephesh], porque morreu", ao contrário de Walter Wolff (Antropologia, p. 38), não pode se presumir aqui que simplesmente Raquel parou de respirar; a descrição é de sua nephesh "saindo-lhe do corpo", sendo que a nephesh igualmente pode voltar ao corpo de acordo com o propósito de Deus, como visto na oração de Elias para que a alma (nepesh) volte ao corpo do menino morto (1 Rs17:21). Salomão em Eclesiastes também  acerca do  "espírito[ruah] volte a Deus que o deu" (Ec 12:7). Se assumirmos que nephesh unicamente trata de uma vida existencial e associada a respiração, sendo assim igualmente o caso deu seu paralelo xûr (ruah), não haveria motivo para ler "Ruah  Elohim" (Espírito de Deus) em Gênesis 1  como algo maior do que um "sopro" de Deus (Em Hebraico, ruah pode significar tanto "espírito" quanto "sopro", é óbvio que a Bíblia trata claramente  "Ruah Elohim" como inteligente, poderoso e pessoal). 
        O próprio Senhor Jesus demonstra a imortalidade da alma em Mateus 10:28. Jesus afirma: "não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma (gr.  psichê, o equivalente grego de "nepesh), temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo". Segundo o teólogo batista Wayne Grudem (Teologia Sistemática, p. 390): "Aqui a palavra alma claramente se refere à parte da pessoa que persiste após a morte. Não pode significar 'pessoa' ou 'vida', pois não faria sentido falar daqueles que 'matam o corpo e não podem matar a pessoa', ou que 'matam o corpo e não podem matar a vida', a menos que haja algum aspecto da pessoa que continue vivo depois da morte do corpo". Na cruz, Jesus  entregou o espírito (pneuma) ao Pai, sendo que logo a seguir, expirou (Mc 15:37 - Mateus afirma que ele rendeu o espírito, cf. Mt 27:50), Isaías, ao falar acerca de Cristo séculos antes, afirmara que ele "derramaria sua alma[nepesh] na morte" (Is 53:12). Geisler (Teologia Sistemática, Vol. 2, p.54) é enfático: "Como já demonstrado, alma e corpo são uma unidade, e não uma identidade. Se elas fossem idênticas, então,obviamente uma não poderia viver sem a outra... por força de analogia, a alma está para o corpo como o pensamento (na mente) está para a folha de papel, o conceito permanece quando o material perece" e acrescenta: "A Bíblia nos informa que a alma, de fato, sobrevive à morte do corpo, e ela aguarda a ressurreição do corpo...mas a sobrevivência de uma alma sem um corpo não é impossível, nem contraditória"[4].  Por isso, a afirmação de George Ladd (Teologia do Novo Testamento, p. 627) de que na visão hebraica "nem nephesh nem ruah são tidos como uma parte do homem capaz de sobreviver à morte de basar [carne]". Deve ser firmemente rejeitada[5]. Ainda que tanto o Antigo quanto o Novo Testamento vejam o homem como um unidade, fica-se claro que há uma distinção ou aspecto importante na constituição essencial do ser humano na antropologia bíblica.

b) Sheol (Mundo dos mortos, sepultura): A Afirmação de Ladd (Ibid, p.259) que "de acordo com o Antigo Testamento, o Seol não é um lugar de punição. O destino dos ímpios e dos justos é o mesmo." é firmemente confrontada por Horton (op. cit, p. 45): "Algumas passagens indicam claramente o Sheol é um lugar de punição para os ímpios (Sl 9:17; cf.  Nm 16:33, Jó 26:6; Sl 17:18/49:13-15..)", Berkhof (Teologia Sistemática,p. 630) tem opinião semelhante: " Se, conforme a exposição bíblica, o sheol-hades é um lugar neutro, sem distinções morais, sem bem-aventurança por um lado, mas também sem sofrimento positivo por outro, lugar de qual todos descem igualmente, como pode o Antigo Testamento falar da descida dos ímpios ao sheol em termos de advertência, como o faz em diversas passagens, como Jó 21:13; Sl 9:17; Pv 5:5, 7:27; 9.18;5:24;23:4? Como pode a Bíblia falar da ira de Deus ardendo ali, Dt 32:22, e empregar o termo sheol como sinônimo de Abadon, isto é, destruição, Jó 26:6; Pv 15:11; 27:10?".
         N. T. Wright, em sua famosa obra A Ressurreição do Filho de Deus, ainda que tendo uma visão um tanto quanto diferente da apresentada por Horton e Berkhof, define: "Sheol, abaddon, cova, sepultura. A escuridão, regiões profundas, terra do esquecimento. Estas expressões quase intercambiáveis denotam um lugar de trevas e desespero; um lugar onde não é mais possível desfrutar a vida, e onde a presença do próprio YHWH não é mais desfrutada...Como em Homero, não existe a sugestão que estejam se deleitando; trata-se de um mundo lúgubre e tenebroso...se há níveis diferentes do sheol, eles são de miséria e degradação"[6]. Não há como concordar que era isso que os santos do Antigo Testamento tinham como perspectiva após a morte. Mesmo Ladd, de maneira inconsistente e contraditória, afirma que " existem poucas, mas contundentes declarações no Antigo testamento, no sentido de que a morte não será capaz de destruir a comunhão que o povo de Deus desfruta com ele" e também que "Os salmistas não podem conceber que a comunhão com com Deus possa alguma vez ser rompida, nem mesmo pela morte"(op. cit., p. 259), a bem da verdade, os salmistas, a meu ver, nada mais demonstram vida normal e devocional do crente vétero-testamentário.  Os salmos 49 e 73, por exemplo, demonstram claramente e firmemente o contraste entre crente e o ímpio e o destino dos dois de maneira singular. No primeiro, o salmista faz um alerta para que o crente não inveje a prosperidade daqueles que desfrutam glória e honra nesta vida, pois mesmo os ricos hão de ver a corrupção (vrs 9-12), sendo que tais honras, após a morte, não possuem valor (vrs16-17). Porém acerca do seu destino, o salmista possui um pensamento totalmente diferente:

"Mas Deus remirá a minha alma do poder do "sheol", pois me receberá" (vrs 15).

Aqui não há simplesmente um livramento ocasional da sepultura,  mas sim um total contraste com aqueles que vivem para as coisas terrenas e que perecerão: Mesmo morto, Deus cuidará do salmista e o receberá. Como o receberá? A resposta implícita é: para Si mesmo. Aqui há tanto a certeza do cuidado de Deus pelo crente mesmo após a morte quanto da remissão de Deus do poder da morte e da condenação, o que aponta, claramente, para algo ainda maior: o resgate da própria morte.

O caso de Asafe ainda é mais pungente. Após passar um período de perplexidade acerca da prosperidade dos ímpios, que não possuíam apertos em sua morte (Sl 73:3-4), mesmo eles sendo rebeldes e odiadores de Deus (vrs 5-12), porém ao entrar no templo de Deus e contemplar a sua glória e entender a futilidade e o final da vida ímpia (vrs 17), estes cairão e serão destruídos, porém o salmista, arrependido, sabe que está sempre diante da presença de Deus. Asafe então proclama uma das mais firmes e belas confissões de fé:

"Todavia, estou de contínuo contigo; tu me seguraste pela mão direita, Guiar-me-ás pelo teu conselho, depois, me receberás em glória.A quem eu tenho no céu senão a ti? e na terra não quem eu deseje além de ti. A minha carne e o meu coração desfalecem mas Deus é a fortaleza do meu coração e a minha porção para sempre" (Sl 73:24-26).

Não há dúvida que os textos acima expressam firmemente a garantia do cuidado e da direção de Deus nesta vida, para depois, sermos recebidos em glória. Para um legítimo crente do Antigo Testamento, de maneira nenhuma a morte o poderia separar da presença de Deus.

Vejamos, todavia, os argumentos apresentados para provar o contrário dessas asserções:

-  A expressão Sheol, nada mais é do que um sinônimo para selputura (hb. qever).

Este argumento, expresso repetidas vezes por teólogos liberais e até mesmo por alguns conservadores, não encontra respaldo nos textos citados anteriormente. Acerca dessa afirmação, Horton escreve: "quando a Bíblia fala de sepultura, de uma maneira inconfundível como quando os israelitas perguntaram a Moisés:'Não havia sepulcros no Egito, para nos tirardes de lá, para que morramos neste deserto? (Ex 14:11) geralmente é usada outra palavra hebraica: qever". É bem verdade que em determinados textos, sheol e qever são tratados como sinônimos, porém têm-se a existir neste caso mais uma associação de idéias do que um significado exato[7].

- Em geral, os crentes do Antigo Testamento, como Jó, Jacó, Salomão e Ezequias (Jó 7:7-10, Gn   37:35, Ec 3:19-21, Is 38:17-18).  demonstram ceticismo e descrença quanto a uma realidade futura.

Essa declaração teológica, repetida ad infinitum pelos teólogos liberais e conservadores que adotam a hermenêutica histórico-crítica, ignora um detalhe contextual básico e importante: todas as falas foram proferidas por crentes em forte desespero e  sentimento de desilusão. A experiência de Jó revela  o retrato de um homem confuso, depressivo e angustiado,que pensa estar sendo alvo do castigo de Deus (Jó 7:20), um homem que varia entre  firmes expressões de fé a gritos de dúvida e até mesmo arrogância diante do Todo-poderoso, tal elemento perpetua todo o livro de Jó. Em um determinado momento, Jó declara que do que um homem é impossível um homem justificar a si mesmo diante de Deus, pois sabe que não têm como responder diante d'Ele (Jó 9:1-4), porém, apenas alguns minutos depois, clama em amargura para que Deus o faça saber porque está contendendo contra Ele, pois não acha justo o que está passando (Jó 10:1-22)! Tais questionamentos perpassam todo livro até chegar ao clímax com a soberana resposta de Deus nos capítulo 39 a 42. É interessante notar que o problema de Jó não está na morte em si, mas sim em morrer diante da ira de Deus. Ele não consegue ver onde tenha cometido pecado e por isso, quer se encontrar diante de Deus antes que vá para o lugar de "sombra e morte" e "trevas" (Jó 10-22). Por isso, a afirmação de N. T. Wright (Ressurreição, p.158-159), que as ideias expressas por Jó no capítulo 7 sejam características do pensamento comum da época vétero-testamentária não é plausível e não consegue esquivar-se de certos questionamentos. Ainda mais com a declaração de Jó em 19:25-27, que expressa uma firme convicção:

"Porque eu sei que o meu redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra, e  depois de consumida a minha pele, ainda em minha carne verei a Deus, vê-lo-ei por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros, o verão, e por isso, o meu coração se consome dentro de mim".


Ainda que Wright afirme que " quase com certeza" (ibid, p. 159) o texto citado não está tratando aqui de uma expressão em uma esperança futura, ele não apresenta nenhum argumento conclusivo, apenas aponta possíveis "problemas de tradução", "o que fora dito nos textos anteriores" e "obscuridade no texto", sendo que sua assertiva já fora questionada e rebatidas por outros estudiosos, como Gleason Archer, Norman Geisler e Francis I. Andersen . [8]. O hebraico no  27 é enfático, Jó fala acerca de si mesmo, sendo que tem firme esperança de sua vindicação, e mesmo consumida a sua pele, ainda em minha carne ele verá a Deus. isso será possível pelo seu Redentor, o Go'el que se levantará sobre a terra[9].

O caso de Salomão em Eclesiastes é semelhante ao de Jó. É extremamente perigoso utilizar as declarações de Eclesiastes (como as que aparecem em Ec 3:19-21) para definir a visão israelita padrão acerca da vida após a morte. A bem da verdade, os primeiros capítulos de Eclesiastes não podem serem tomados como padrão do crente no Antigo Testamento pois descrevem a vida  partir de um ponto de vista de alguém desiludido, que encara todas coisas da vida como vapor e sem sentido. Salomão, aqui, claramente descreve seu pensamento na época de sua apostasia e longe de Deus. É interessante notar que o próprio livro ainda afirma que o espírito do homem voltará a Deus, que o deu. No final, o próprio Salomão admite a vida  na verdade é  um dom de Deus, que jugará todas as obras feitas, quer sejam boas, quer sejam más.

O caso de Jacó e Ezequias não demonstra uma falta de esperança na vida futura. Wright (op. cit, p. 149 ) afirma: "Quando Jacó declara  que perder um filho 'faria descer suas cãs com tristeza ao Sheol', ele não estava dizendo que tal tragédia o levaria para o sheol ou a outro lugar, mas que sua passagem seria acompanhada de tristeza e não de satisfação por uma vida longa e valiosa". Para Horton (op. cit, p. 47): "Jacó, naquela ocasião, recusara a ser confortado, sem dúvida pensando que ele e José estivessem de algum modo sob o julgamento de Deus. Não há registro que Jacó tenha buscado ao Senhor novamente, a não ser depois de ter recebido a notícia que José estava vivo (Gn 45:28-46:1). Portanto, é provável que Jacó tenha considerado sheol como um lugar de punição". No  que se refere a Ezequias, o texto indica  que Ezequias fizera uma oração de arrependimento devido ao seu pecado, ainda que interpretemos sheol como sepultura, Ezequias não está dizendo que todos os homens irão ao mesmo lugar, mas sim, que este, caso perecesse, não poderia louvar a Deus na terra dos vivos.

O salmo 115  resume bem do sentimento israelita acerca do futuro.  Às vezes até mesmo citado como um salmo que fala de uma vida sem esperança devido a afirmação do versículo 17,  porém quando lemos atentamente, vemos grande esperança:

"Os mortos  não louvam ao senhor, nem aos que descem ao silêncio, mas nós bendiremos ao SENHOR, desde agora e para sempre. Louvai ao Senhor!".

Aqui, claramente se manifesta a confiança de uma vida futura na presença de Deus. Algo que Oseias, Isaías e Daniel, deixarão clara e limpidamente expressa[10].

Uma palavra definitiva acerca do "sheol-hades" vem do próprio Senhor Jesus. Em Lucas 16,  fala acerca do Rico e Lázaro, Jesus claramente mostra que o rico, no Hades-sheol), estava "em tormentos" ( vrs 23), enquanto que Lázaro, estava no seio de Abraão (ou seja, na presença de Deus). Aqui, claramente se vê o sheol como um lugar de tormento e tristeza, enquanto que para o justo, o conforto da Santa presença de Deus.

II). A Esperança Manifesta no Novo Testamento.

No que tange ao ensino neotestamentário, Tanto o Senhor Jesus quanto os apóstolos foram claros acerca do cuidado de Deus pelos seus santos após a morte. Ao ladrão da cruz, nosso Senhor expressamente afirmou que este estaria com ele "no paraíso". O apóstolo Paulo sabia que, ao deixar este corpo, ele iria diretamente para a presença de Cristo no céu (Fp 1: 23). Porém a esperança do após a morte para nosso Senhor e para s apóstolos não se resume a uma vida além-túmulo. Mas sim na ressurreição dos mortos. Como dito anteriormente, a morte é um inimigo a ser destruído. Com sua morte, Cristo venceu a própria morte e quebrou seu império, e consequentemente, desfez a maldição da serpente (o Diabo). O escritor de Hebreus afirma:

"E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que, pela morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo, e livrasse toso os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão" (Hb 2:14-15).

Cristo é primícias da ressurreição (1 Co 15:20), e assim como ele ressuscitou, assim também nós ressuscitaremos em glória eterna. A morte será o último inimigo a ser destruído (1 Co 15: 26) e já não mais existirá (Ap. 21:4). Essa é a firme e esperança do crente.


Conclusão.

A pergunta feita por Jó, então, tem uma reposta? Nosso franco e definitivo parecer é um grande SIM. Por certo Jó, quando morreu, velho e farto de dias, já estava firme e convicto disso. A vinda do Filho de Deus, o Senhor Jesus, com sua morte, nos trouxe o perdão dos pecados e a garantia da presença de Deus a todo aquele que crê N'ele (Jo 3:36), além disso, com sua ressurreição, nosso Senhor garantiu a vitória sobre o mundo, a carne e o diabo e nos fez, portanto, mais do que vencedores.  Com ele, certamente temos mais do que  a felicidade no paraíso. Sabemos que, para desfrutarmos plenamente nossa vida com Deus, ressuscitaremos em glória. Para o que nele crê, não se está reservado (como aos ímpios) uma região de trevas e sem luz, seguida, depois, do agonizante lago de fogo, mas sim as perpétuas delícias Nele. Em Cristo, a pergunta de Jó é plenamente respondida:

"Egw eimi h ` anastasij kai h ` zwh) ~O pisteuwn eij eme( kan apoqanh( zhsetai)  Kai paj o ` zwn kai pisteuwn eij eme ou mh apoqanh eij ton aiwna) Pisteueij touto?"

"Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. Quem vive e crê em mim nunca morrerá para sempre, crês tu isto?" (Jo 11:26-27 )

E também:

Não temas; Eu Sou o Alfa e o ômega e o que vive; fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre, Amém! e tenho as chaves da morte e do inferno (Hades)" (Apocalipse1:18).

Por isso, podemos fazer coro com o apóstolo Paulo e dizer: "onde está, ó morte, o teu aguilhão, onde está, ó inferno, a tua vitória?" (1 Co 15: 55). E também dizer: " Amém, ora vem Senhor Jesus!" (Ap 22:20).


Soli Deo Gloria


Notas:

1. O livro de Stanley Horton, Nosso Destino (republicado pela CPAD com o título O Ensino Bíblico das últimas coisas) fornece dentro de um ponto de vista conservador e erudito , porém simples e abrangente, respostas as indagações modernas acerca deste assunto. Horton também trata desse assunto em sua Teologia Sistemática, uma perspectiva pentecostal.
2. HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001. p. 516.
3. WOLFF, Hans Walter. Antropologia do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008. p. 34.
4. Geisler define a visão bíblica do homem e a questão entre a relação corpo/alma como Hilomorfismo, que forma uma unidade da pessoa humana. Tal termo provém de Tomás de Aquino (1225-1274).
5. Surpreendentemente, o próprio Ladd, no capítulo que trata  da "Escatologia Individual"(p. 258-259)  dentro da seção acerca dos evangelho sinóticos contradiz sua declaração registrada aqui. Ao que parece, o livro de Ladd sofre do problema de uma teologia bíblica que tem o método histórico-crítico de pesquisa: não se consegue chegar a uma unidade e uma sintetização entre os textos bíblicos, na ênfase de, a todo custo, ressaltar sua diversidade. O resultado por fim, é um retrato aparentemente contraditório nos textos bíblicos (obs: as edições mais recentes do livro de Ladd tentam contornar esse problema com capítulo adicionais de R. T. France e David Wenham). Ladd expressou mais claramente sua visão sintetiza acerca da antropologia bíblica no capítulo "The Greek versus the Hebrew view of Man"[A visão grega versus a visão hebraica do homem] em seu livro The Pattern of New Testament Truth  [O Padrão da Verdade Neostamentária]. Disponível em:www.presenttruthmag.com/archive/XXIX/29-2.htm
>; Último acesso em: 08/01/2013.
6. WRIGHT, N. T. A Ressurreição do Filho de Deus. São Paulo: Paulus, 2013. p.148
7. Ao fazer uma análise de Isaías 14:9-11, Wright nota uma "fluidez de pensamento entre o Sheol, como morada mítica das sombras, por um lado, e a realidade física da sepultura- pedras, vermes e larvas - por outro" (Ressurreição, p 149).
8. No entendimento de Wright, os únicos textos mais claros no Antigo Israel que tratam de um esperança futura são os Salmos 49 e 73(ele passa por alto em outros salmos e textos bíblicos que indicam essa mesma esperança, como Gn 22:2-5, Sl 17:15, o "clássico" Salmo 23 e o Salmo 115), sendo que a regra em geral é a expectativa de um caminho sem volta ao sheol, como demonstrado nos livros de Jó e Eclesiastes. Na passagem de Jó citada por ele,  a grande questão envolve a tradução exata de Jó 19:26: "E depois de consumida a minha pele, ainda em minha carne, verei a Deus". A expressão em minha carne, envolvendo a palavra hebraica "min", expressão que possui uma variedade gama de possíveis traduções. Sendo que, dentro do contexto do capítulo é também possível traduzir a expressão como "fora de", o que resultaria na tradução "ainda sem a minha carne". Holladay (Léxico Hebraico Aramaico, p. 283) oferece mais de cinco outras possibilidades. Todavia, Archer (Panorama do Antigo Testamento, p.583) afirma: "é razoável afirmar que, em conexão com o verbo ver (hazâ), min, segundo seu emprego em outros trechos, quase sempre descreve a perspectiva  daquele que vê". Geisler (op. cit, p.698) é de igual opinião: "Embora a palavra min frequentemente signifique 'sem', é usada com o sentido de 'dentro' em Jó 36:25. Além disso, quando usado em conexão com o verbo 'ver' (haza), min assume o significado  de "dentro de", ou "do ponto de", que novamente, implica dentro do corpo ressurreto".  A defesa da tradução tradicional se encontra ainda mais bem defendida no comentário de Francis I. Andersen (Jó - Introdução e comentário, p. 192): "As referência à pele, ao corpo e aos olhos tornam claro que Jó espera ter esta experiência como homem, e não num estado de espírito desencarnado, ou na visão de sua mente". Anderson nota o fato que mesmo antes de Jó fazer o questionamento citado na introdução (Jó 14: 14) , há uma firme expectativa que Deus poderia resgatá-lo do Sheol (no caso aqui, da própria sepultura - cf. Jó 14:13). Andersen mostra que a relutância dos eruditos em não aceitarem esse ponto de vista se dá por pensarem que a ideia de ressurreição futura se encontra muito tempo depois do livro de Jó ter sido escrito.
9. Geisler (ibid, p.698) ainda faz menção a Jó 42:13, onde mostra que o número de filhos do patriarca não foi duplicada depois de seu sofrimento, o que indica que Jó jamais perdeu seus outros filhos, que seriam reunidos na ressurreição.
10. O leitor há de notar que não faço menção as claras profecias de Isaías, Ezequiel e Daniel acerca da ressurreição futura, isso(como falado por Andersen) se dá pelo fato de se discutir acerca da fé no Antigo Israel, sendo que, para a maioria dos teólogos históricos a esperança da ressurreição nação judaica foi feita após livros como Jó e Eclesiastes terem sido escritos. Dependo da opinião do estudioso, pode-se afirmar que só surgira realmente no período próximo ao do Exílio babilônico (afirmação essa que entra em direto choque com Hebreus 11:10,19).


REFERÊNCIAS:

ANDERSEN, Francis I. - Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984.
ARCHER, Gleason. Panorama do Antigo Testamento. 4° ed. São Paulo: Vida Nova, 2012.
BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática.4 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
GEISLER, Norman. Teologia Sistemática - Volume 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: atual e exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 1999.
HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001.
HOLLADAY, William L. Léxico Hebraico-Aramaico do Antigo Testamento.São Paulo: Vida Nova, 2010.
HORTON, Stanley. O Ensino Bíblico das Últimas Coisas.4° ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.
LADD, George. Teologia do Novo Testamento.São Paulo: Hagnos, 2003.
____________. The Greek versus the Hebrew View of Man. Disponível em: <http//www.presenttruthmag.com/archive/XXIX/29-2.htm>.  Último acesso em: 08/01/2013.
WOLFF, Hans Walter. Antropologia do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2008.
WRIGHT, N. T. A Ressurreição do Filho de Deus. São Paulo: Paulus, 2013.

GQL 2013: Em firmeza e em constância no Senhor.

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O ano de 2013 se aproxima do final e, olhando para o que passou, só podemos nos alegrar e glorificar o nome do Senhor.  Neste ano, tanto eu como Renan Diniz fomos abençoados com a benção do matrimônio com as mulheres que amamos. No linguajar popular do crente: esperamos, e Deus nos abençoou! E como toda a vida de casado, novos desafios e responsabilidades surgem. Busca-se, com alegria, glorificar a Deus.

As atividades eclesiásticas foram constantes, sendo que um dos picos altos foi a III Conferência Graphe, realizada no mês de outubro. Particularmente, nunca imaginei que o trabalho em uma pequena congregação fosse mais firme, profundo e empolgante, o que exigiu bastante concentração e esforço, tanto minha quanto de outros membros do blog, como Nilton Rodolfo, Janyson Costa e Carlos Leite. Fora o trabalho secular e os estudos universitários, que igualmente não puderam ser menosprezados.

Com isso. inevitavelmente o blog GQL sofreu bastante com a grande escassez de artigos. No total, apenas(com este incluso) 9 artigos foram publicados (pequeníssimo comparado com os 38 de 2012 e  87 em 2011), a maioria constituindo-se de resenhas de livros. Sentiu-se falta dos devocionais de Nilton e dos artigos teológicos e filosóficos de Janyson. Porém tudo isso deveu-se a atenção dada a tarefas importantes porque não, igualmente bíblicas, teológicas e devocionais. Ainda assim, esperamos que, se Deus quiser, possamos escrever um número maior e considerável de artigos. Temas não faltam, em especial concernente a doutrina pentecostal e e sua realidade brasileira.

Em 2013, o blog completou 6 anos de existência, sendo que em 2014 completará 10 anos de formação inicial do grupo. Durante todo esse período, pudemos contemplar, a partir do foco regional e nacional de nossa denominação, o perigo espiritual cada vez mais frequentes que rodam o corpo de cristo, e de maneira particular, o pentecostalismo assembleiano. Mesmo em momentos de paz, não deixamos de ter dúvidas que as lutas  são frequentes diante de uma geração de jovens crentes biblicamente iletrados e superficiais. É com pesar que vejo quase 80% dos adolescentes e jovens com que convivi estarem desviados ou vivendo uma subcultura de cristianismo.  uma nova geração surge, e infelizmente parece que os males da anterior já estão cada vez mais se impregnando na atual. Ainda assim, sabemos que Deus é soberano e nos proporciona grandes alegrias. Neste ano, Deus no deu a graça de conhecermos e ensinarmos jovens e adolescentes que ouviram falar de nós, ainda que de maneira extremamente negativa (conhecendo as controvérsias relatadas neste blog, o leitor deve imaginar o porquê). Ao procurarem saber mais, acabaram por juntar-se anós no combate da Fé. E isso, por certo, nos cumula de grande alegria. Nestes momentos ecoa a palavra do Salmista:


"Grande é o Senhor, e mui digno de louvor, e a sua grandeza inescrutável. 
Uma Geração louvará tua obras a outra geração, e anunciarão as tuas proezas.
Falarei da magnificência gloriosa da tua majestade e das tuas obras maravilhosas.
E se falará da força dos teus feitos terríveis; e contarei a tua grandeza.
Proferirão abundantemente a memória da tua grande bondade, e cantarão a tua justiça.
Piedoso e benigno é o Senhor, sofredor e de grande misericórdia."

Salmo 145:3-8.

Só podemos louvar e engrandecer ao Senhor, e pedindo graça para que, em 2014, pela graça de Deus não nos afastemos com o incentivo do apóstolo Paulo: continuar continuando, com alegria, firmes e constantes na obra do Senhor, pois sabemos que o nosso trabalho, no Senhor, não é vão (1 Co 15:9) .


Um feliz 2014 a todos os leitores, amigos e irmãos do blog Geração que Lamba.

                                                                                                                                      Soli Deo Gloria.

Deus manifesto na Carne

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"E, sem dúvida, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em Carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregados aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória".

                                                                                                                              1 Timóteo 3:16.


Nos tempos em que vivemos, é comum vermos, na época de natal, cada vez mais pessoas correndo de um lado para o outro em busca de compras para o seus familiares e amigos. Não poucas vezes o stress aparece e o que seria um momento de reflexão, mesmo em meio aos cristãos, acaba sendo um momento vazio e e destituído de valor. Na passagem acima, o apóstolo Paulo, inspirado pelo Espíri:to, tece esta bela verdade histórica em uma linguagem sonoramente poética: Deus foi manifesto em Carne¹, tal afirmação está intimamente ligada com João 1:14², onde o apóstolo João afirma que o Verbo se fez carne. Há profundas verdades neste texto, dentre as quais, podemos destacar:


- Deus é gracioso: Ao vir a este mundo e assumir a natureza humana, O Senhor Jesus revelou a graça de Deus, seu favor imerecido, sua bondade para com os homens(Lc 2:14 ). Deus enviou seu filho não porque éramos homens imperfeitos querendo acertar, mas porque éramos pecadores, alienados de Deus e por natureza, filho de Sua ira, porém , ainda assim, Deus nos amou perfeitamente (Jo 3:16).

- Deus é Fiel: O nascimento de Jesus revela a maravilhosa soberania de Deus, que guiou a história de tal maneira que tudo o que ocorreu, ocorreu segundo seu santo e perfeito plano, e suas promessas para com o seu povo, foram cumpridas: havia chegado então o go'el( hb. resgatador), aquele que libertaria o povo de Deus( Mq 5:2).

- Deus é verdadeiro: Cristo é a plenitude da Verdade, ele é a Verdade (Jo 14:6 ). Nosso Senhor demonstra que esse foi um dos propósitos de Seu nascimento. Através da verdade, é que somos salvos (Jo 18:37).

Deus está perto de nós: Em Jesus, vemos de maneira clara o intenso desejo de Deus manifestado desde o antigo Testamento, através das Teofanias, do Anjo do Senhor, do tabernáculo, dos templos de Salomão e de Zorobabel: Deus habitar entre os homens. Ele fez isso de de forma plena. Deus é real e verdadeiro, não é uma simples ideia ou conceito filosófico, mas um Deus pessoal que amou tremendamente os homens para o louvor da Sua Glória. Moisés olhou para Deus "de costas". Hoje, podemos contemplar a face de Deus na pessoa de Jesus Cristo. Nas palavras de David Murray, Cristo é "a visível face de Deus"³. Em Cristo, cumpre-se o anelo do salmista Davi,  Deus não escondeu o Seu rosto (27:8-9), benditos são aqueles que não viram e creram, e sabem que um dia o Verão (cf. Jo 20:29/ Mt 5:8), pois ele é Deus conosco (Mt 1:23, cf. Is 7:14) .


À luz de tudo o que foi dito, ou seja, Deus é gracioso, Fiel, verdadeiro e presente, não nos resta mais coisa alguma, a não ser declarar como Tomé: "Senhor meu, e Deus meu!" ( Jo 20:28). Que você possa se juntar com o anteriormente incrédulo apóstolo e confessar: Cristo Jesus é Senhor, para a glória de Deus-Pai.

O blog Geração que Lamba deseja a todos os seus leitores um Feliz Natal nas bençãos do Emanuel!

AMÉM.

Soli Deo Gloria

Notas:

1. A maioria das Bíblias atuais segue o texto grego crítico, que adota a variante "aquele que se manifestou em carne", omitindo a palavra "Deus". Todavia, a variante "Deus" é atestada pela maioria dos manuscritos gregos e citações dos Pais da Igreja, sendo adotada pelos Texto Recebido, Majoritário e pelo Texto Patriarcal da Igreja Ortodoxa Grega. Não há motivos, a meu ver, para não considerar tal variante como legítima. (para mais informações vide PICKERING, William. Qual o Texto Original do Novo Testamento? Disponível em: http://issuu.com/victorleonardobarbosa/docs/qual_o_texto_original_do_novo_testamento).
2."E o verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de Verdade".
3. MURRAY, David. Jesus on Every Page. Nashiville: Thomas Nelson Publishers, 2013. p. 76

Cristo no Antigo Testamento: Uma Resenha do Livro " Jesus on Every Page" de David Murray.

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Sempre tive certo fascínio pelas histórias do Antigo Testamento, mesmo quando menino estudando em uma escola católico-romana, via-me fascinado pelas histórias da Bíblia, sendo que em 1997, ao ganhar uma Bíblia de Aniversário, comecei a ler Gênesis. Passando por Adão, Noé, Abraão e Isaque, lembro-me da impressão que tive ao ler a vida de Jacó e seu relacionamento com Esaú, que iniciou com maquinações, desbocando em ódio até chegar a uma reconciliação. Lembro-me também do impacto que tive ao ler Eclesiastes, quando na época, era cercado por traços de filosofia existencialista de certo colega na escola. Ainda que tais histórias sejam extremamente edificantes, do que simplesmente tratam? Qual a relação entre elas?  Como o Antigo Testamento tem sido interpretado pela igreja contemporânea? Diante disso, o livro Jesus On Every Page, lançado pela Thomas Nelson publishers. escrito pelo pastor e professor de Antigo Testamento David P. Murray, têm muito a acrescentar.

Murray, Doutor em Ministério pelo Reformation Theological Seminary, é simples e objetivo  ao responder a pergunta: "qual é o assunto principal do Antigo Testamento?" A resposta é muito clara: Cristo. Partindo de sua própria experiência durante os anos no que tange à leitura e interpretação do Antigo Testamento (o que ele chama de "minha estrada para Emaús"), Murray trata acerca das principais leituras feitas hoje por vários teólogos e pregadores, assim como tipos de pregação, detectando um grave problema: A falta de um foco cristocêntrico. Tendo como base a leitura de Lucas , onde Jesus encontra dois discípulos rumo a Emaús e outros trechos relacionados, Jesus mostra que todo o Antigo Testamento testifica acerca d'Ele, sendo que só podemos interpretar o Antigo Testamento tendo como base o próprio Evangelho.

O livro é divido em duas partes. A primeira, subdividida em  6 capítulos, busca dar a resposta "Qual é o assunto principal do Antigo Testamento?", sendo que tal resposta é encontrada nas afirmações de João, Pedro, Paulo e também do próprio Jesus: As Escrituras Hebraicas testificam acerca de Cristo. Na segunda parte, partindo da resposta dada na primeira, o autor procura mostrar como "descobrir" ou ler  Cristo no Antigo Testamento como, por exemplo, na Criação, na Lei, nos profetas, no Anjo do Senhor, entre outros.

AVALIAÇÃO.

Escrito de forma simples e límpida, a obra é extremamente proveitosa tanto para  leigos no assunto quanto estudiosos, tendo em vista que Murray cita vários teólogos e eruditos,  antigos e atuais como, por exemplo, Irineu de Lião e Sidney Greidanus. A Obra também serve como excelente introdução para o método Histórico-Redentor de interpretação para a teologia bíblica do Antigo Testamento assim como para a Homilética cristocêntrica do Antigo Testamento. 

As questões práticas também são abundantes na obra de Murray. No oitavo capítulo, por exemplo, Murray analisa como pregar a Cristo a partir dos personagens do Antigo Testamento. Sem querer menosprezar a importância destes como exemplos para o cristão, o doutor Murray mostra que pregações centradas apenas nos personagens estão gravemente incompletas, o que transforma as atuais mensagens bíblica mais em conselhos de auto-ajuda do que realmente o anúncio do Evangelho e edificação da igreja.

A obra de Murray é de extrema importância para a vida da igreja, em especial a da igreja brasileira, que ainda em determinadas ocasiões, ou menospreza o Antigo Testamento, ou o utiliza indevidamente (como temos visto na maioria das pregações sobre prosperidade). Recomendo de todo o coração a leitura deste livro.

                                                                                                               Soli Deo Gloria.


Para adquirir o livro de David P. Murray acesse o site  Amazon.

Acesse também o site do Livro: www.jesusoneverypage.com


Graças a Deus por Sua Soberania!

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Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças" (Filipenses 4.6). "A soberania de Deus é algo intrínseco ao Seu ser majestoso, pois se Deus não fosse soberano a Sua divindade seria falaz. De fato, se Deus não fizesse tudo o que lhe apraz Ele não seria Deus [1].

Creio que a verdade da soberania de Deus deve ser objeto de meditação mais profunda de nossos corações, porque tal doutrina é fonte de grande conforto para nós. Caso você esteja passando por lutas em sua vida cristã e por isso possua dúvidas se você perseverará até ao fim no caminho do Senhor, lembre-se da soberania de Deus. É Ele que opera em você tanto o querer quanto o efetuar [2] e, tomando as palavras de Paulo mais uma vez, "tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo" [3]. Guarde isto em seu coração: Deus não deixa as suas obras pela metade, se Ele começou a Sua boa obra em você, Ele a completará. Continue servindo ao Senhor, com arrependimento e fé, de todo o seu coração.

O Deus soberano criou homens responsáveis por seus atos. Isto é importante de ser lembrado, para que você (e eu) não caia no erro de que não temos de tomar decisões em nossas vidas pelo fato de Deus ser plenamente soberano. Pelo contrário, ao invés da soberania de Deus excluir a nossa responsabilidade diante da vida, ela é um incentivo para que ajamos com sabedoria. Porquanto, soberanamente, Deus nos instrui por meio de Sua Palavra revelada, a fim de que pela obediência à Sua santa Palavra Ele seja glorificado e nós sejamos abençoados [4]-[5].

Além disso, a realidade da soberania total do Senhor Deus é uma bênção para nos motivar em nossas orações. Porque ela nos lembra de que Deus é poderoso para fazer muito além do que pedimos ou pensamos, segundo a Sua boa vontade [6] - de fato, se compreendermos com mais profundidade que estamos falando com o Senhor dos senhores em nossas orações, com certeza, seremos mais fervorosos e reverentes ao fazê-las.


 Renan e Paloma
Pois bem, antes de finalizar esta breve reflexão, eu gostaria de tratar acerca da soberania de Deus no aspecto pessoal de nossas vidas. É um grande erro crermos que Deus é soberano somente sobre nossa salvação, santificação, vida de oração e demais aspectos espirituais; e não reconhecê-la sobre nossos estudos, profissão, relacionamentos em geral, namoro, noivado, casamento e tudo o mais que envolve nossas questões mais pessoais. Se Deus é soberano (e de fato Ele o é), Ele é soberano sobre toda a nossa vida. Que descansemos na soberania de Deus em tudo, de acordo com as palavras de Paulo citadas no início deste texto. Oro ao Senhor para que Ele nos ajude a estudar, trabalhar e tomar nossas decisões, estando certos de que todas estas coisas estão sob o Seu cuidado providencial. Sabendo que Ele é fiel para guardar o nosso coração e nos abençoar de acordo com a Sua vontade.

Victor e Geisi.
Finalmente, gostaria de testemunhar da soberania de Deus na vida dos membros deste blog. Dentre inúmeras bênçãos, neste ano, nossos amigos e irmãos Renan e Paloma; e Victor e Geisiele contraíram matrimônio para a glória da soberania de Deus. Sabemos que tudo isso é graças a Ele. Que o Senhor abençoe e guarde estes novos casais em Seu santo caminho.

Aos casais de namorados e noivos que ainda estão se preparando para o dia abençoado do casamento, que descansem na graça e na soberania de Deus. Ele está no controle de tudo. 

 
Que depositemos nossa fé nEle, e não em nossas forças, dinheiro ou qualquer outra coisa. 

Que Deus seja glorificado.



Notas:
[1] Sl 115.3.
[2] Fl 2.13.
[3] Fl 1.6.
[4] Dt 29.29.
[5] Dt 6.1-3.
[6] Ef 3.20.

“Não importa somente o destino, importa também a estrada”

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Gostaria de iniciar este artigo citando esta frase: “Governar é povoar; mas, não se povoa sem se abrir estradas, e de todas as espécies; Governar é, pois, fazer estradas!” – Washington Luís 1 .

Mas você pode se perguntar o que isso tem haver com um blog evangélico? Na verdade nada, mas servirá para uma análise do “governo” da igreja e os tipos de estradas que estão sendo construídas no sul do Pará (quem sabe no Brasil).

Não é novidade para ninguém que anda por esse Brasil a fora a precariedade das estradas, mas vou me atentar as do sul do Pará, local onde tenho trafegado no último ano. Tenho chegado a locais sem saneamento básico, água tratada, energia elétrica, telefones e de grande dificuldade de locomoção (estradas cheias de buraco, estradas de piçarra com buracos, estradas com atoleiros) locais estes que necessitam de melhor atenção do poder público e, como citado na frase, de melhores estradas. Mas será que o meio tem que influenciar tanto assim o desenvolvimento da igreja? Até onde isso pode enfraquecer o Evangelho de Cristo? Vou dar a resposta de antemão, em NADA. Mas vou agora relatar fatos sobre pessoas que se dizem evangélicas, que presenciei de perto e até muitas das vezes por elas fui posto à prova.

1) Conheci uma adolescente de 13 anos que frequenta a AD (dos tantos Ministérios e Convenções que existem por essas bandas) que tinha casado (amigado) com o consentimento dos pais e do obreiro da sua congregação com um rapaz de 27 anos, mas já era viúva, pois o mesmo tinha sido morto por pistoleiros;

2) Igreja da AD que não tem EBD, pois os membros na sua maioria não compravam revista;

3) Aluno meu dizendo que o pastor dele disse que é o sol que gira em torno da Terra (Geocentrismo?);

4) Aluna que “virou crente” e só vem um dia sim outro não, pois o pastor “revelou” que se ela viesse todo dia uma desgraça iria recair sobre ela;

5) Fui cortar o cabelo, aí o barbeiro me perguntou se eu era evangélico, respondi que sim. Ele perguntou como seria o corte e disse para baixar um pouco, ele se espantou e me contou que certa vez foi um senhor cortar o cabelo, mas antes perguntou se ele fazia “corte de crente”, por sua vez bem educado perguntou se era corte social. O senhor respondeu que não era de crente, pois todo crente tem o mesmo corte de cabelo;

Coloquei apenas cinco fatos, mas que para mim são o bastante para retratar o nível de calamidade que nossos irmãos demonstram a sociedade, trazendo males eternos para os crentes, e sendo um escândalo e escarnio para os não crentes . Mas onde está a igreja que é a coluna da verdade? Aquela que faz a diferença na sociedade? Acredito que está semelhante às estradas que são usadas para chegar às mesmas, com tantos buracos teológicos e sem muita das vezes firmadas no melhor asfalto que é Cristo.

Vou listar alguns buracos e até pedaços desta estrada que estão faltando.

1) Pedaço da estrada Ensino da Palavra pura e simples;

2) Buraco da “fábrica” de pastores em série, com o discurso de “(. . .) grande é a seara e poucos são os ceifeiros”;

3) Buraco da falta de investimento teológico de qualidade para o crescimento do ministro;

4) Buraco de um coração humilde e contrito para obra de Deus;

5) A estrada toda da Confiança na Supremacia de Deus.

Gostaria de terminar com uma frase de Jonh Bunyan sobre o processo de conversão, processo este tão negligenciado em nossos tempos, e acredito que evitaria alguns buracos.

“A conversão não é um processo suave e fácil como algumas pessoas imaginam; se assim fosse o coração do homem jamais teria sido comparado a um solo não cultivado, e a Palavra de Deus, a um arado.” - Jonh Bunyan 2.


A Paz do Senhor


Obs.: Peço oração para que Deus me dê graça e conhecimento, pois muitos dos casos relatados e os não relatados são de alunos meus.

Bibliografia:

1 https://pt.wikipedia.org/wiki/Washington_Lu%C3%ADs

2https://www.facebook.com/photo.php?fbid=684796181546655&set=a.320598784633065.99106.311692538857023&type=1&theater

CGADB 2013: O partidarismo mata, mas o Espírito Vifica

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Desde algumas semanas que não há postagens regulares no blog GQL, isso se deve em grande parte a várias tarefas: trabalho, família, faculdade, e também o ministério em uma pequena congregação assembleiana local. Longe da opulência da realidade que nos cercava quando estávamos na Igreja-Mãe, as lutas foram diferentes, assim também como os desafios enfrentados (que apesar de aparentemente mais simples, também possuíam forte confronto pessoal), todavia, tudo dentro de um contexto de uma igreja local. Tais preocupações e ambiente tiraram dos escritores "principais do blog" (Janyson, Nilton e eu) não somente a frequência ao escrever (algo que esperamos mudar), mas também nos distancia da fadiga e das lutas políticas que enfrentamos tempos atrás, pelo menos, partindo de minha experiência pessoal. Tal afastamento foi, a meu ver, extremamente positivo. Todavia, isso não significa que ficamos totalmente alheios ao que acontecera nesse período (algo impossível dentro de um contexto assembleiano), porém nossos focos e atenções principais foram dirigidos a algo mais próximo (e por certo infinitamente mais importante do que horas a fio nos meandros da política dentro instituição eclesiástica): a preciosa vida das ovelhas de nossas igrejas. 

Desde minhas últimas postagens acerca da CGADB e do estado em que esta se encontra atualmente, pouca coisa mudara. No cenário atual, nenhum dos partidos por assim dizer traria realmente uma mudança substancial para a CGADB e um refinamento ministerial para o benefício da igreja, juntar-se a algum deles ou apoiá-los não seria necessariamente insensatez, mas desperdício de tempo e fadiga desnecessária. Caso o pastor Samuel Câmara fosse eleito, por certo sentiríamos certo ar de renovação e um considerável dinamismo, que traria alívio em muitos aspectos, mas a meu ver, isso só se daria no âmbito administrativo para eclesiástico. A ênfase em um ensino bíblico sadio que os membros de nossas igrejas receberiam, através de um profundo e ortodoxo conhecimento bíblico vindo de pastores genuinamente vocacionados íntegros não encontra voz no partido nortista (assim também como no sulista), muito menos espaço no atual cenário político assembleiano. Para quem está no centro, o cenário é desolador e leva a desilusão, mas para quem está a margem, é propício à reflexão.

Durante muito tempo eu tenha sido visto com alguém aliado de Wellington e de sua política eclesiástica, haja vista sempre parecer que eu tecia críticas mais profundas ao ministério da igreja-mãe, mesmo sendo um de seus filhos, a resposta que dou a isso é muito simples: sei falar muito mais e também melhor do ambiente em que convivo do que o do vizinho distante. O conhecimento que possuo do sul vem do relato confiável de irmãos em Cristo que convivem de perto com essa realidade; e também daquilo que vi quando visitei a igreja do Belenzinho em outubro do ano passado. Por mais valiosos que esses relatos sejam não há como formar uma crítica abrangente de quem vive lá. O que vi no templo do belenzinho reflete bem o ministério de Welligton: nas cadeiras dos pastores, que ficam atrás do púlpito, há uma cadeira especial, que na verdade mais se assemelha a um trono, toda banhada em ouro (pelo menos eu acho), reservada apenas ao pastor presidente, e naquela época, havia também grandes cartazes com a foto do presidente anunciando, se não me engano, a publicação de sua biografia. A pregação daquele dia fora simplista, superficial e eisegética. Todavia, não há dúvida que a despeito de suas falhas, houve contribuições para o ensino bíblico, ainda que de forma indireta. Durante seu governo, a CPAD investiu em livros teológicos profundos e de sabedoria bíblica. Ainda que houvesse graves erros, como a publicação da Bíblia Dake, e alguns livros de qualidade bíblica duvidosa. Com certeza há outras coisas piores e que vai além de meus conhecimentos

Porém sei o que vejo em meu contexto. Quanto a igreja mãe, lembro-me que na época do centenário, houve uma intensa campanha de arrecadação de fundos para a construção do Centro de convenções, feito às pressas e em pouquíssimo tempo, tendo também um alto custo em sua construção, a solução adotada fora a obrigatoriedade feita para as ofertas dos membros das igrejas locais. Com isso vinham bingos, sorteios semanais de carros zero-quilômetro, festas sociais. Membros que precisavam de uma ajuda financeira davam grandes fatias para o "desafio do centenário". O grande problema é que mesmo passada as celebrações, os cupons permaneceram, assim também como os sorteios; caso o pastor local não consiga vender tais cupons, o clima de "fraqueza pastoral" sente-se no ar e o medo de perder o ministério, torna-se um grande temor. Há escolas de pregadores na igreja mãe (pelo menos até certo tempo existia), para auxiliar os jovens pregadores. Porém o modelo de pregador adotado é o do atual ministro de direitos humanos (falo de teologia e homilética, não de questões políticas). A teologia da prosperidade e o analfabetismo bíblico andam juntos em cursos como esse. Há também outras alas, mais voltadas ao pragmatismo neopentecostal, refletido principalmente no ministério de adolescentes, jovens e até mesmo nos casais. Aqui, a filosofia de ministério é pautada por eventos e encontros. A escola dominical é considerada o ministério por excelência, mas é óbvio que deve ceder a atividades mais contemporâneas como cultos de vale-tudo, e outros com temáticas absurdas e superficiais.

Não quero com isso passar à ideia que a igreja-mãe não possua qualidades, muito menos as congregações filiadas a ela, muitas tendo pastores e membros sinceros e genuinamente devotados ao Senhor. Nem tampouco conheço o coração do pastor Samuel Câmara, o qual tenho respeito e carinho desde a adolescência, porém não há duvidas que tais elementos existam por seu consentimento,  sendo que claramente os vemos em seus métodos e filosofia de ministério.

O resultado dessa eleição nos mostra uma coisa: teremos mais do mesmo. Fazendo um retrospecto, pude ver que muita ênfase é dada a eleição, como se o dia de votação fosse o dia "D". A esperança do surgimento de uma nova via, comandada por algum candidato firme e íntegro que apareceria e transformaria todo o sistema era, em termos práticos, quase messiânica para alguns. Mas só há um Messias, este foi morto e ressuscitou e está assentado a direita do Pai. Uma mudança é lenta, e às vezes imperceptível.  A mudança não se encontra em uma eleição, mas em nossas igrejas locais, através de obreiros vocacionados, íntegros, cheios do Espírito e poderosos nas Escrituras, que busca formar, pela graça de Deus, uma membresia biblicamente saudável. A reforma deve vir a partir do fundamento dado pelo Espírito: a Palavra de Deus. Por muito tempo, afirmei que dentro de todo esse contexto, deveríamos buscar fazer a nossa parte. Mas que parte era essa? Administrativa? Política? O apóstolo Paulo tem muito a nos ensinar: Cumpre bem o teu ministério (2 Tm 4:7). É óbvio que precisamos de uma liderança boa, íntegra e escrava da cruz a frente da CGADB. Esse é o desejo de meu coração. Porém para uma CGADB firme, precisamos de pastores íntegros, e isso só se forma em nossas nossas congregações locais. São os que permanecem firmes na Palavra e dispostos a pagar o preço é que começarão a serem instrumentos de mudança ali. Enquanto isso, teremos administradores cuidando de seus negócios. A mudança não deve começar simplesmente no sistema político, mas na igreja. A CGADB não reflete simplesmente seus males, mas os males dos líderes, e a questão se encontra no próprio conflito da igreja. Para termos uma CGADB saudável, precisamos de igrejas saudáveis, e isso só acontece quando líderes dão exemplo ao seu rebanho, um exame bíblico e ético. A mudança deve ocorrer no sistema da escolha de pastores das congregações, e não de partidários a uma organização.


Parafraseando apóstolo Paulo, o partidarismo, pelo menos como se vê hoje, mata e destrói, mas os firmados em Cristo serão vificados e renovados. Aos tantos pastores genuínos e que verdadeiramente se preocupam com tal situação: descansem, voltem para casa, e para os braços de suas amadas ovelhas. Estas por sua vez, os receberão igualmente com braços abertos.


                                                                                                                          Soli Deo Gloria

"Porque nós não somos, como muitos, falsificadores da palavra de Deus; antes, falamos de Cristo com sinceridade, como de Deus na presença de Deus... não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus... E Temos, portanto, o mesmo espirito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nós cremos também, por isso também falamos. Sabendo que o que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também por Jesus, e nos apresentará convosco"

2 Coríntios 2:17; 3:5; 4:13-14