quarta-feira, dezembro 07, 2016

A PREGAÇÃO EXPOSITIVA E O CRESCIMENTO SAUDÁVEL DA IGREJA.



Ao  longo dos anos a preocupação com o crescimento da Igreja tem sido um dos pontos de grande conflito no meio dito cristão:
 De um lado consistentemente muitos pastores e teólogos ortodoxos, denunciam métodos extremamente carnais e a utilização do pragmatismo sob a motivação de “ganhar” vidas para Cristo, bem como a megalomania perniciosa de algumas denominações e igrejas em olhar para vidas como simples proporções numéricas e deliberadamente se agarram a qualquer estratégia, mesmo antibíblica, para aumentar o número de membros e congregados em suas igrejas.
Do outro lado, temos aqueles que acusam a ala ortodoxa de ser indiferente ao evangelismo e negligenciar o crescimento de suas igrejas e por isso fazem parte ou conduzem igrejas anãs e que diminuem ainda mais ano após ano.
Ressaltamos que biblicamente, de fato, a Igreja deve promover o Evangelho de maneira ativa, o Grande Comissionamento é indiscutível em Mateus 28, assim, indubitavelmente estão cometendo um grave erro aqueles que tratam de maneira indiferente e negligente o evangelismo e o crescimento de suas igrejas.
Contudo, não temos sido chamados para acompanhar qualquer um desses dois erros, mas sim para evangelizar, fazer missões e nos preocupar com o crescimento da igreja, todavia de maneira Escriturística e em fidelidade ao Senhor.
Nosso Senhor não somente nos comissiona, mas prescreve como isso deve ser realizado, sendo assim nos comissiona segundo um direcionamento completo e preciso:

“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.”Mateus 28:19,20

Analisando o texto resta claro que tanto o Evangelismo como o Discipulado cristão devem estar alicerçados na Palavra de Deus, Cristo mesmo assim o fez, tanto a apresentação do Evangelho por parte de nosso Senhor como o cuidado de seus discípulos foram desenvolvidos ao longo de seu ministério de maneira alicerçada na Palavra.
  Deste modo existe uma determinação para o Evangelismo, assim como para tudo o que é praticado e desenvolvido na Igreja do Senhor e para experimentarmos o poder de Deus este deve ser obedecido. Paulo ressalta este ponto:

Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.
Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. Romanos 10:13-17

E ainda: ”Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação.” 1 Co 1:21.
É inquestionável a conclusão dos textos mencionados de que o Evangelismo e o Crescimento da Igreja devem estar alicerçados na pregação da Palavra de Deus e não encontraremos direcionamento diverso na Escritura.
Deste modo, o crescimento da igreja deve ser almejado sim, porém com fervor e de maneira íntegra e santa, sendo executado por meio da pregação da Palavra de Deus.
Dito isto, ressaltamos que quando nos referimos a pregação não estamos nos referindo a alguém subindo no púlpito e proferindo o que bem entender de lá, contando histórias inventivas e antropocêntricas, mas em submissão a Deus deve expor a Sua Palavra.
O texto de Romanos que lemos acima é direto e claro nesse ponto “ouvir a Palavra de Deus”, logo o que deve ser anunciado é a Palavra de Deus, o que deve ser pregado é a Palavra de Deus, pois somente nela há o Evangelho que é o Poder de Deus para a Salvação de todo o homem.
Entendendo que o conteúdo do sermão deve ser a própria Palavra de Deus, temos que o método que se submete integralmente e atende essas exigências por se primeiramente bíblico, é o sermão expositivo. James Braga afirma:
O sermão expositivo é o modo mais eficaz de pregação, porque, mais que todos os outros tipos de mensagens, ele, com o tempo, produz uma congregação cujo ensino é fundamentado na Bíblia.
Ao expor uma passagem da sagrada Escritura, o ministro cumpre a função primária da pregação, a saber, interpretar a verdade bíblica (o que nem sempre se pode dizer dos outros tipos de sermões).
O poder de Deus por meio do sermão expositivo é apresentado ao longo de toda escritura, tanto no Antigo Testamento, a título de exemplo citamos Neemias 8 e o livro de Jonas em sua missão evangelística a Nínive.
 Todavia, mais detidamente ao propósito do texto, observamos tal poder ao longo de todo o livro de Atos, já no início do livro quando Lucas registra que no sermão de Pedro, três mil almas foram acrescentadas ao número dos santos.(At 2:14 - 47)
O Pr. John MacArthur prefaciando a excelente Obra do Pr. Dave Aby, Pregação Poderosa para o Crescimento da Igreja, assim comenta o crescimento da Igreja Neotestamentária por meio da Pregação:

No Novo Testamento, o registro da igreja primitiva revela que a pregação deveria ser o coração de toda a atividade da Igreja. A pregação era a principal estratégia para o crescimento da igreja primitiva – e o crescimento da igreja primitiva era mesmo mensurado pelo progresso e a expansão da Palavra de Deus. No texto a seguir vemos como o historiador Lucas registrou o crescimento da igreja primitiva: “E divulgava-se a palavra de Deus, de sorte que se multiplicava muito o número dos discipulos em Jerusalém” (Atos 6:7), “A Palavra de Deus crescia e se multiplicava” (Atos 12:24). “Assim a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia” (Atos 19:20).

Como destacou MacArthur, o crescimento genuíno da Igreja se dá por meio da Pregação da Palavra de Deus, de maneira vívida, poderosa e em submissão total do pregador a esta Palavra.
Hoje em dia presenciamos várias estratégias para o crescimento das congregações, contudo os resultados são claramente perecíveis, emocionais e visivelmente passageiros. A expansão genuína e poderosa do cristianismo se deu por meio da Palavra e os resultados são relatados ao longo de Atos e de toda a História da Igreja do Senhor tanto na reforma protestante, alicerçada na Sola Scriptura (Somente a Escritura é a Palavra de Deus e deve ser anunciada e vivida) como nos movimentos avivalistas onde países inteiros foram impactados pela pregação da Palavra, como na Inglaterra de Spurgeon e Wesley e Whitefield, como nos E.U.A de Edwards e Moody, homens conhecidos por um zelo ardente pela Pregação da Palavra.
Devemos então, de fato nos preocuparmos com o Evangelismo e Crescimento da Igreja, mas de maneira genuína, poderosa e saudável, e o mesmo só se dará, quando as igrejas retornarem a Palavra, reconhecendo e crendo que Ela é o poder de Deus e que aprouve a Deus por meio dela salvar o pecador, pois nela Cristo é anunciado, exaltado e apresentado de maneira plena e perfeita, somente em Sua Palavra.  Isso implica em pregar expositivamente todo o conselho de Deus. (2 Coríntios 2:17; 3:5; 4:1-2; 13-14).

BIBLIOGRAFIA:

BRAGA, James. Como Preparar Mensagens Bíblicas. Minas Gerais Editora Vida. 1994.

EBY, David. Pregação Poderosa para o Crescimento da Igreja: O papel da pregação em igrejas em crescimento. São Paulo. Arte Editorial e Candeia.2001

solus christus

domingo, novembro 20, 2016

5 Maneiras de Criar uma Geração de Cristãos Perdidos

Caro Pséustês,


Antes de lhe falar o que realmente importa, quero deixar algo bem claro: eu dito as regras; você as obedece.

Pséustês, você precisa ser sutil e persuasivo. Siga religiosamente cada passo abaixo. Quanto mais obediente você for, mais perdidos os membros de sua igreja estarão. Não há tempo a perder.

1) Utilize métodos carnais para atrair e manter novas pessoas na igreja. Nada de ensinar a Bíblia com seriedade e fidelidade. Se você quer que as pessoas curtam um estilo alucinante de igreja, é melhor fazer com que elas gastem bastante tempo com música, teatro, dança, jogos e diversas outras coisas mais fáceis de lidar e envolver-se.

2) Faça de tudo para que os membros de sua igreja não progridam sozinhos. Incentivar a leitura bíblica pessoal? Nunca! Combata os grandes avanços da reforma protestante nesta área; seja o discipulador pessoal absoluto de cada cristão de seu povo; passe a imagem de que, sem você, eles nada podem fazer.

3) Prenda-os na igreja. Seja criativo. Há sete dias na semana, utilize-os bem. Ensine aos seus amigos que Deus não se interessa nos estudos e tampouco no trabalho deles. "Servir a Deus é estar na igreja somente", seja a suma de seu ensino. Se algum pai de adolescente vier reclamar da ausência de seu filho em casa, responda: "senhor, seu filho está engajado na obra; não se preocupe, eu cuido dele."

4) Blinde-os espiritualmente. Não deixe que eles aprendam a maneira bíblica de verificar se são cristãos genuínos ou não. Em vez disso, ratifique a ideia de que o importante é o passado. Deixe impresso em suas mentes: "Orei, chorei, está tudo ok." Por favor, não invente ensiná-los a máxima do salmista: "Como purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra" (Sl 119.9).

5) Torne-os elegantemente orgulhosos. Busque desenvolver neles o sentimento de que, além de você, eles são os únicos que sabem a verdade. Isso facilitará bastante a tarefa de distanciá-los de boa teologia. Desestimule-os ao máximo na leitura de bons livros cristãos e do consumo de material saudável na internet (artigos e vídeos produzidos por homens de Deus). Aliás, ajude-os a odiar a leitura em geral. O caminho para a luz, lembre-se disso, quase sempre é indicado pela leitura de um bom texto.

Saudações pecaminosas, seu mestre, Airetikós.

terça-feira, outubro 11, 2016

Declare e exija




 Para mais reflexões como essa (em inglês), acesse: adam4d.com
Link do original: http://adam4d.com/name-claim/

domingo, setembro 18, 2016

Eu, Netflix e a Escola Bíblica Dominical


Neste trimestre da Escola Bíblica Dominical (EBD), na congregação da qual faço parte, temos presenciado uma expressiva redução na frequência dos alunos (em especial, dos jovens). Sem dúvida, o período de férias contribuiu para que entrássemos em um clima de relaxamento dos compromissos. Sucessivamente, vieram as olimpíadas. Os jogos de vôlei da seleção brasileira geralmente terminavam depois de meia-noite. Os shows de Michael Phelps, Katie Ledecky, Bolt e cia também nos faziam curtir ainda mais este clima de “tranquilidade”.

Entretanto, nossos problemas não pararam aí. Mesmo após o fim das olimpíadas, a frequência na EBD se manteve baixa. Conversamos com alguns irmãos e ouvimos suas resoluções de não faltar nas próximas semanas, mas isso não mudou muita coisa. Então, qual é o nosso principal problema? Por que muitos de nossos jovens não estão conseguindo ir às aulas ou chegar no início destas?

Eu sei a resposta. A razão é simples: eu passo pelas mesmas lutas que eles. Faço parte destes jovens. Por isso, gostaria de tratar deste tema levando em consideração a minha própria experiência. Aliás, sou um dos membros que não tem conseguido chegar no início das aulas de EBD. Uma vergonha.

Além das interações virtuais comuns no Twitter, Facebook e Whatsapp, no último mês algo passou a fazer parte de meu cotidiano: a Netflix. Tenho o objetivo de estudar inglês com as séries que assisto (pelo menos em tese :-) ). Neste contexto, comecei a assistir a série Daredevil. Há uma história legal, discussões religiosas e sociais interessantes e uma boa ação. Aprendi algumas palavras novas, treinei um pouco mais os ouvidos e, pronto, tchau primeira temporada. Muito legal. Entrou para o hall da fama que tem a série 24 horas no topo. No entanto, adivinhe qual o dia da semana candidato ao prêmio de melhor dia para assistir aos episódios da 2ª temporada, até mais tarde que o comum? O sábado.

Geralmente, o período de sábado à noite me dá uma impressão de “serviço cumprido”. As tarefas da universidade, a priori, foram realizadas; bem como as atividades da igreja. Após o passeio com a noiva ou amigos, nada melhor do que relaxar no fim do dia, não é mesmo? E é só colocar o fone nos ouvidos e curtir mais um episódio do suposto estudo de inglês no período de maior silêncio de minha casa. Até segunda ordem, nenhum problema até aí. O problema é que quase sempre este(s) episódio(s) terminam por volta de 1h30 da madrugada. Resultado: grande probabilidade de atraso na EBD às 8h30.

Quando eu era aluno de graduação, aprendi a dormir tarde e a acordar cedo (até mesmo a não dormir, quando as provas do dia seguinte eram ameaçadoras demais). Contudo, não sou mais aquele jovem de 19 anos. O avanço da idade e o aumento de minhas responsabilidades não me permitem mais fazer esse tipo de coisa. Preciso dormir em torno de seis horas a cada noite. No entanto, nas últimas semanas tenho me arriscado a achar que “conseguirei acordar certinho às 7h00 e chegar à igreja antes de 8h30”, mas não tem dado certo. Tenho presenciado piscadas na cama que duram minutos, quase horas. Não dá mais para arriscar o que está em jogo na EBD.

“Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite”, escreveu o salmista inspirado, acerca do homem bem-aventurado. A Escola Bíblica Dominical tem este propósito: nos auxiliar no estudo das Escrituras, a fim de que nos deleitemos em Deus e aprendamos a exercer o nosso chamado nas mais variadas situações da vida. Vale muito a pena nos prepararmos para estarmos nesta escola. Fora o risco de não irmos à igreja de manhã, ficarmos na internet até tarde no sábado à noite nos levará a um baixo aproveitamento das aulas. Com sono não há como se concentrar bem. Netflix e cia podem ficar para outro momento. Nossas desculpas para faltar à EBD caem por terra quando Facebook, Twitter e Whatsapp testemunham de que saímos da rede de madrugada. Que Deus nos ajude a honrá-lo.

Neste texto, trato acerca de alguns de meus problemas e dos irmãos próximos a mim, não com o intuito de envergonhá-los ou de dar um puxão de orelha neles indiretamente. Pelo contrário, aproveito o dia nacional da Escola Dominical para compartilhar de nossas dificuldades sabendo que isso aflige muitas igrejas. Oro para que o Senhor nos ajude a usar com sabedoria e vigilância as tecnologias que estão disponíveis a nós, e a nos deleitarmos cada vez mais no Seu conhecimento nas manhãs dominicais de nossas igrejas, com alegria e gratidão pela maravilhosa salvação que Ele nos concedeu.

Que Deus seja glorificado.

quinta-feira, julho 28, 2016

Namorar ou stalkear? (Parte 1)


       São nove horas da noite. O culto de jovens foi bom: os louvores bíblicos e a pregação fiel da Palavra de Deus foram centrais na reunião. Porém, não é o tema da pregação que está tomando conta da mente de Jorge. É o belo sorriso de uma garota. A amiga de um irmão da igreja, que visitou o culto de hoje, não sai de sua mente. “Poxa, se pelo menos eu soubesse o nome dela...”, pensava Jorge. O jeito era pesquisar nos contatos e nas fotos do Facebook de seu amigo, a fim de encontrar o rosto mais lindo que ele havia visto hoje.

       Sem sucesso, Jorge parte para a sorte no Google. “Menina gata da igreja face” e “sorriso lindo igreja insta” são algumas de suas tentativas. Também malsucedidas. Após horas a fio, Jorge desiste. Agora era esperar que a bênção fosse para a escola dominical no dia seguinte. 

                                                                *      
       - Jorge, meu filho, já são sete da manhã. Não vou te chamar pela terceira vez.

     - Está bom, mãe. Agora eu vou levantar mesmo. Obrigado – respondeu Jorge, lembrando-se do principal motivo de ir à escola dominical naquele domingo com cara de chuva.

       Foi um dos primeiros a chegar na igreja e sentou-se em um dos bancos do meio. Entre um cântico e outro, olhava para trás com a esperança de ver a sua paixão – ele nem sequer sabia o nome dela, mas já estava apaixonado -, mas nada. Nem sinal da garota.

       O tempo foi passando e chegou-se ao momento final da aula. Jorge, sentindo uma espécie de dor no coração – não sabia explicar o porquê disso, mas parecia que lhe faltava algo -, estava meio desanimado. Contudo, num piscar de olhos, esse mal-estar se foi. Durante o momento de perguntas e respostas, um pouco de esperança retornou ao seu coração. Ele ouvira uma voz familiar: “Eu e minha amiga estamos com uma dúvida acerca dessa questão do senhorio de Cristo na totalidade da vida.

       - Eras, ela veio! - pensou Jorge, consigo mesmo.

      O professor, então, em sua educação (e inocência em relação à mente de Jorge), primeiro perguntou a Mário o nome de sua amiga visitante.

       - O nome dela é Patrícia, professor – respondeu Mário. 

      - Está ok. Bem, Mário e Patrícia, o ponto da aula de hoje foi mostrar que Cristo não está relacionado apenas a questões eclesiásticas, da igreja, como se todo mundo tivesse de ser pastor ou do grupo de louvor para poder adorar a Deus. 

      - Mas, de que maneira Deus pode ser adorado nos meus estudos de química, por exemplo? – perguntou Mário.

      - Uma das maneiras é você estudar química com seriedade, diligentemente. Sem preguiça. De modo que você dedique seus estudos para o louvor de Deus. Além disso – continuou o professor -, você pode se maravilhar com os conceitos de energia, forças intra e intermoleculares, ligações químicas e muitos outros; reconhecendo que os padrões apresentados por eles e as leis que os regem (sem as quais não haveria como estudar química) não são obras do acaso, e sim de Deus, o soberano Criador.

       - Entendi, professor. Vou digerir melhor essas verdades e depois lhe pergunto outras coisas – finalizou Mário.

      - Estarei à disposição, irmão… Bem, se não há mais perguntas, passo a palavra ao pastor Lucas – disse o professor, concluindo a sua participação naquela manhã.

     A reunião matinal estava chegando ao fim. Os jovens estavam refletindo em como deveriam glorificar a Deus em suas respectivas atividades, inclusive Jorge. Há algum tempo a ciência da computação estava sendo considerada secular demais para ele. “O que Jesus Cristo tem a ver com linhas de código e linguagens de programação, afinal?”, pensava ele.

   No entanto, naquele momento, sendo bastante sincero em relação aos pensamentos que pairavam naquela mente criativa, tudo isso era secundário. O que de fato mexia com Jorge era um nome apenas: Patrícia.

sexta-feira, julho 15, 2016

O Deus que se explica – Uma reflexão sobre o tema da canção do momento.



O leão rugiu, quem não temerá? O SENHOR Deus falou, quem não profetizará?” (Am 3.8)



Alguns dias atrás os debates nas redes sociais ficaram acirrados com a canção “Ninguém Explica Deus” do grupo de louvor cristão Preto no Branco. Devido ao enorme sucesso da música entre os evangélicos, logo surgiram análises acerca do conteúdo da canção, como os produzidos pelo blog Cante as Escrituras e por meu amigo e irmão em Cristo João Paulo Mendes1. Meu propósito não é analisar a música em si (algo já feito pelo Cante e outros blogs de maneira bem mais competente), mas sim analisar justamente o tema proposto pela música: Será que ninguém “explica a Deus”? Ou melhor, será que Deus é “explicável”? É o que veremos a seguir.


É importante desde já afirmar que realmente não tem como alguém conseguir explicar  Deus em sua plenitude. Ou seja, ninguém consegue explicar de maneira absoluta e total a pessoa e o ser de Deus, ou proferir um discurso exaustivo acerca d'Ele, de seus planos e propósitos. O apóstolo Paulo, após falar extensivamente acerca do mistério da predestinação e providência de Deus na História da Redenção, termina a seção de Romanos 9-11 de forma impactante, como se tivesse chegado no limite daquilo que poderia falar. O apóstolo irrompe de maneira abrupta  um retumbante hino de louvor:

Ó profundidade das riquezas tanto da sabedoria como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Porque quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém! (Rm 11.33-36)

O fato  que ninguém pode compreender ou explicar a Deus de forma plena é algo totalmente estabelecido. Isso se dá pela simples realidade de que, se realmente o explicássemos, ele não seria Deus. Todavia, o fato de não explicarmos ou expressarmos tudo o que é possível acerca de Deus não significa que esse assunto esteja encerrado. Não, há mais coisa a se dizer.

Uma questão extremamente importante é que Deus é um Deus que explica a si mesmo. Ou, como a fé cristã mais propriamente afirma: Deus revela a Si mesmo. Em seu livro clássico sobre pregação, o Teólogo John Stott afirma sem rodeios: “Deus tem falado. Ele não somente é comunicativo por sua própria natureza, como também realmente se comunicou com o seu povo mediante a fala.” E ainda: “dava-se ao trabalho de explicar [ênfase minha] o que estava fazendo”2. Pouco antes, Stott, comentando João 8.12, afirmava: “A declaração de João que Deus é luz e não possui treva nenhuma significa que Deus é manifesto e não secretivo, e que se deleita em ser conhecido. Podemos dizer, portanto, que assim como brilhar é da natureza da luz, também é da natureza de Deus revelar-se3. As declarações de Stott refletem profundamente a verdade bíblica. Contrariando Immanuel Kant, que afirmava que uma realidade transcendental (ou “numenal”) não pode ser realmente conhecida pela mente humana e pela ordem natural, o apóstolo Paulo já afirmava que Deus já se revelava pela natureza, e que “as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo e seu eterno poder como a sua divindade se entendem e claramente se veem pelas coisas que estão criadas”, o que faz com que o homens, no dizer do apóstolo, fiquem sem desculpa de ignorância.

Seguindo um pensamento semelhante em uma apresentação distinta, o teólogo e crítico textual Edward F. Hills, seguindo seu professor Cornelius Van Till, afirmou: “Na natureza, nas escrituras e no evangelho de Cristo Deus revela-se a si mesmo, não meras evidências da sua existência, não meras doutrinas concernentes acerca d'Ele, não meramente uma história de seu lidares com os homens, mas a SI MESMO (ênfase do autor)”4. O que acontece hoje em nossa cultura foi aquilo que foi constatado por Carl F. Henry há cerca de 40 anos: O homem ocidental vive uma crise de confiança no que diz respeito à palavra, quer falada, quer escrita. E logo, sua crise obviamente acaba inevitavelmente chegando na própria conceituação e adquirição de informação autêntica. Ou seja, na própria forma de adquirir conhecimento e entendimento da realidade que o cerca.

”Os teólogos radicais que menosprezam, eles mesmos, a verbalização cristã frequentemente empregam um dilúvio de palavras para depreciar ou minar a importância das palavras para a teologia. Se palavras forem consideradas intrinsecamente não confiáveis, então o futuro de uma teologia de revelação verbal e a proclamação verbal do evangelho – ou, no fim das contas, de qualquer outra formulação escrita ou falada – é, de fato, sombrio.5

Não há como não associar as palavras de Henry ao refrão da música do Preto no Branco: “teologia pra explicar ou Big bang pra disfarçar/Ninguém explica Deus”. Sendo que em alguns versos antes, se diz que Deus “ Se revelou aos seus, do crente ao ateu”. Só podemos objetar: das duas, uma; ou o compositor mergulhou tão profundamente em seu subjetivismo que não enxergou uma contradição total nos versos, mas os aceitou devido à beleza da rima, ou então ele não crê que a Revelação de Deus seja de fato em palavras.

Ainda que eu pense que a primeira opção seja a verdadeira, é bom atentarmos brevemente para a segunda. É comum nos círculos neo-ortodoxos ou pós-moderno é acerca da transcendência de Deus que não há espaço para uma revelação verbal. Esses teólogos auto-contradizentes, como exposto por Henry, ignoram duas coisas: Tanto a onipotência de Deus quanto sua imago. O homem não possui simplesmente a imagem de Deus. Ele é a imagem de Deus.

O conceito de Imago Dei encontra sua plenitude sem sombra de dúvida na pessoa de Jesus. Ele é o Logos de Deus. Expressão rica na língua grega, que expressa inúmeros conceitos. Ainda que de maneira limitada, as traduções da Bíblia seguem expressões adequadas: Jesus é a Palavra, ou o Verbo de Deus. É o Deus que se revela, que se comunica. Ele é aquele que é “A Imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação”(Cl 2.9). Vemos então que a forma física de Adão foi criada levando em conta a forma que o Verbo iria ter quando se fizesse carne, quando assumisse nossa humanidade.

Algo importante que nosso Senhor falou claramente é da autoridade da Escritura acerca dessa revelação. Podemos falar claramente dela como sendo “A Palavra de Deus”, até mesmo (parafraseando Edgar R. Lee no livro Panorama do Pensamento Cristão) o “exalar do Espírito”. A definição de Hills é bastante adequada. Temos uma revelação tripla: O Deus que se revela na natureza, nas Escrituras e no Evangelho - a Boa Nova que veio ao mundo, O “Emanuel, [que] traduzido é: Deus conosco” (Mt 1.23b) . Nessa revelação, Deus revela a si mesmo.

Se temos um Deus que se revelou, logo, temos também um Deus que se revela, ou que “explica” quem é e o que está fazendo. Obviamente, não temos como conhecer a Deus de forma total, porém de forma suficiente, Ele é o “grande Eu Sou”. Porém, quando vamos às Escrituras, vamos à Cristo, que diz: “Ninguém conhece quem é o Filho, senão o Pai, e ninguém quem é o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Lc 10.22). Em Cristo, podemos conhecer a Deus de maneira extremamente pessoal. E então encontramos nosso propósito, como sintetizado de maneira atemporal no Catecismo Menor de Westminster: “Qual é o fim principal do Homem? Resposta: O fim principal do homem é glorificar a Deus, e se deleitar nele para sempre”

Conclusão.
Podemos estar certo que podemos falar de maneira adequada de Deus e que por certo podemos, dentro dos devidas limitações, “explicá-lo”, pois Ele mesmo se revelou. Quando lermos a Palavra, que tenhamos o incentivo do profeta Oseias, que não sejamos um povo que perece porque lhe faltou conhecimento, mas sim: “Conheçamos, e prossigamos em conhecer o Senhor. A sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, chuva serôdia que rega a terra.” (Os 6.3). Que esse seja o foco de nossa vida, e o ardente desejo de nosso ser.

AMÉM.

Soli Deo Gloria


1O artigo de J. P. Mendes está disponível em: < http://joaopaulo-mendes.blogspot.com.br/2016/07/ninguem-explica-deus-o-incognoscivel.html> onde o autor trata de maneira muito apropriada acerca do fato de não termos um conhecimento pleno do ser de Deus. Como o leitor há de notar, procuro focar na questão oposta, porém sem entrar em contradição com o artigo de João Paulo.
2STOTT, John. Eu creio na Pregação. Tr. Gordon Chown. São Paulo: Vida, 2003. p.100
3Op. Cit. p.99
4HILLS, Edward F. The King James Version Defended. 4° ed.Des Moines: Christian Research Press, 2001.p.4
5HENRY, Carl F. Deus, Revelação e Autoridade – O Deus que fala e age. Tr. Estevan Kirschnner. São Paulo: Hagnos, 2016. p.31

"Porque nós não somos, como muitos, falsificadores da palavra de Deus; antes, falamos de Cristo com sinceridade, como de Deus na presença de Deus... não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus... E Temos, portanto, o mesmo espirito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nós cremos também, por isso também falamos. Sabendo que o que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também por Jesus, e nos apresentará convosco"

2 Coríntios 2:17; 3:5; 4:13-14