quinta-feira, julho 28, 2016

Namorar ou stalkear? (Parte 1)


       São nove horas da noite. O culto de jovens foi bom: os louvores bíblicos e a pregação fiel da Palavra de Deus foram centrais na reunião. Porém, não é o tema da pregação que está tomando conta da mente de Jorge. É o belo sorriso de uma garota. A amiga de um irmão da igreja, que visitou o culto de hoje, não sai de sua mente. “Poxa, se pelo menos eu soubesse o nome dela...”, pensava Jorge. O jeito era pesquisar nos contatos e nas fotos do Facebook de seu amigo, a fim de encontrar o rosto mais lindo que ele havia visto hoje.

       Sem sucesso, Jorge parte para a sorte no Google. “Menina gata da igreja face” e “sorriso lindo igreja insta” são algumas de suas tentativas. Também malsucedidas. Após horas a fio, Jorge desiste. Agora era esperar que a bênção fosse para a escola dominical no dia seguinte. 

                                                                *      
       - Jorge, meu filho, já são sete da manhã. Não vou te chamar pela terceira vez.

     - Está bom, mãe. Agora eu vou levantar mesmo. Obrigado – respondeu Jorge, lembrando-se do principal motivo de ir à escola dominical naquele domingo com cara de chuva.

       Foi um dos primeiros a chegar na igreja e sentou-se em um dos bancos do meio. Entre um cântico e outro, olhava para trás com a esperança de ver a sua paixão – ele nem sequer sabia o nome dela, mas já estava apaixonado -, mas nada. Nem sinal da garota.

       O tempo foi passando e chegou-se ao momento final da aula. Jorge, sentindo uma espécie de dor no coração – não sabia explicar o porquê disso, mas parecia que lhe faltava algo -, estava meio desanimado. Contudo, num piscar de olhos, esse mal-estar se foi. Durante o momento de perguntas e respostas, um pouco de esperança retornou ao seu coração. Ele ouvira uma voz familiar: “Eu e minha amiga estamos com uma dúvida acerca dessa questão do senhorio de Cristo na totalidade da vida.

       - Eras, ela veio! - pensou Jorge, consigo mesmo.

      O professor, então, em sua educação (e inocência em relação à mente de Jorge), primeiro perguntou a Mário o nome de sua amiga visitante.

       - O nome dela é Patrícia, professor – respondeu Mário. 

      - Está ok. Bem, Mário e Patrícia, o ponto da aula de hoje foi mostrar que Cristo não está relacionado apenas a questões eclesiásticas, da igreja, como se todo mundo tivesse de ser pastor ou do grupo de louvor para poder adorar a Deus. 

      - Mas, de que maneira Deus pode ser adorado nos meus estudos de química, por exemplo? – perguntou Mário.

      - Uma das maneiras é você estudar química com seriedade, diligentemente. Sem preguiça. De modo que você dedique seus estudos para o louvor de Deus. Além disso – continuou o professor -, você pode se maravilhar com os conceitos de energia, forças intra e intermoleculares, ligações químicas e muitos outros; reconhecendo que os padrões apresentados por eles e as leis que os regem (sem as quais não haveria como estudar química) não são obras do acaso, e sim de Deus, o soberano Criador.

       - Entendi, professor. Vou digerir melhor essas verdades e depois lhe pergunto outras coisas – finalizou Mário.

      - Estarei à disposição, irmão… Bem, se não há mais perguntas, passo a palavra ao pastor Lucas – disse o professor, concluindo a sua participação naquela manhã.

     A reunião matinal estava chegando ao fim. Os jovens estavam refletindo em como deveriam glorificar a Deus em suas respectivas atividades, inclusive Jorge. Há algum tempo a ciência da computação estava sendo considerada secular demais para ele. “O que Jesus Cristo tem a ver com linhas de código e linguagens de programação, afinal?”, pensava ele.

   No entanto, naquele momento, sendo bastante sincero em relação aos pensamentos que pairavam naquela mente criativa, tudo isso era secundário. O que de fato mexia com Jorge era um nome apenas: Patrícia.

sexta-feira, julho 15, 2016

O Deus que se explica – Uma reflexão sobre o tema da canção do momento.



O leão rugiu, quem não temerá? O SENHOR Deus falou, quem não profetizará?” (Am 3.8)



Alguns dias atrás os debates nas redes sociais ficaram acirrados com a canção “Ninguém Explica Deus” do grupo de louvor cristão Preto no Branco. Devido ao enorme sucesso da música entre os evangélicos, logo surgiram análises acerca do conteúdo da canção, como os produzidos pelo blog Cante as Escrituras e por meu amigo e irmão em Cristo João Paulo Mendes1. Meu propósito não é analisar a música em si (algo já feito pelo Cante e outros blogs de maneira bem mais competente), mas sim analisar justamente o tema proposto pela música: Será que ninguém “explica a Deus”? Ou melhor, será que Deus é “explicável”? É o que veremos a seguir.


É importante desde já afirmar que realmente não tem como alguém conseguir explicar  Deus em sua plenitude. Ou seja, ninguém consegue explicar de maneira absoluta e total a pessoa e o ser de Deus, ou proferir um discurso exaustivo acerca d'Ele, de seus planos e propósitos. O apóstolo Paulo, após falar extensivamente acerca do mistério da predestinação e providência de Deus na História da Redenção, termina a seção de Romanos 9-11 de forma impactante, como se tivesse chegado no limite daquilo que poderia falar. O apóstolo irrompe de maneira abrupta  um retumbante hino de louvor:

Ó profundidade das riquezas tanto da sabedoria como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Porque quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém! (Rm 11.33-36)

O fato  que ninguém pode compreender ou explicar a Deus de forma plena é algo totalmente estabelecido. Isso se dá pela simples realidade de que, se realmente o explicássemos, ele não seria Deus. Todavia, o fato de não explicarmos ou expressarmos tudo o que é possível acerca de Deus não significa que esse assunto esteja encerrado. Não, há mais coisa a se dizer.

Uma questão extremamente importante é que Deus é um Deus que explica a si mesmo. Ou, como a fé cristã mais propriamente afirma: Deus revela a Si mesmo. Em seu livro clássico sobre pregação, o Teólogo John Stott afirma sem rodeios: “Deus tem falado. Ele não somente é comunicativo por sua própria natureza, como também realmente se comunicou com o seu povo mediante a fala.” E ainda: “dava-se ao trabalho de explicar [ênfase minha] o que estava fazendo”2. Pouco antes, Stott, comentando João 8.12, afirmava: “A declaração de João que Deus é luz e não possui treva nenhuma significa que Deus é manifesto e não secretivo, e que se deleita em ser conhecido. Podemos dizer, portanto, que assim como brilhar é da natureza da luz, também é da natureza de Deus revelar-se3. As declarações de Stott refletem profundamente a verdade bíblica. Contrariando Immanuel Kant, que afirmava que uma realidade transcendental (ou “numenal”) não pode ser realmente conhecida pela mente humana e pela ordem natural, o apóstolo Paulo já afirmava que Deus já se revelava pela natureza, e que “as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo e seu eterno poder como a sua divindade se entendem e claramente se veem pelas coisas que estão criadas”, o que faz com que o homens, no dizer do apóstolo, fiquem sem desculpa de ignorância.

Seguindo um pensamento semelhante em uma apresentação distinta, o teólogo e crítico textual Edward F. Hills, seguindo seu professor Cornelius Van Till, afirmou: “Na natureza, nas escrituras e no evangelho de Cristo Deus revela-se a si mesmo, não meras evidências da sua existência, não meras doutrinas concernentes acerca d'Ele, não meramente uma história de seu lidares com os homens, mas a SI MESMO (ênfase do autor)”4. O que acontece hoje em nossa cultura foi aquilo que foi constatado por Carl F. Henry há cerca de 40 anos: O homem ocidental vive uma crise de confiança no que diz respeito à palavra, quer falada, quer escrita. E logo, sua crise obviamente acaba inevitavelmente chegando na própria conceituação e adquirição de informação autêntica. Ou seja, na própria forma de adquirir conhecimento e entendimento da realidade que o cerca.

”Os teólogos radicais que menosprezam, eles mesmos, a verbalização cristã frequentemente empregam um dilúvio de palavras para depreciar ou minar a importância das palavras para a teologia. Se palavras forem consideradas intrinsecamente não confiáveis, então o futuro de uma teologia de revelação verbal e a proclamação verbal do evangelho – ou, no fim das contas, de qualquer outra formulação escrita ou falada – é, de fato, sombrio.5

Não há como não associar as palavras de Henry ao refrão da música do Preto no Branco: “teologia pra explicar ou Big bang pra disfarçar/Ninguém explica Deus”. Sendo que em alguns versos antes, se diz que Deus “ Se revelou aos seus, do crente ao ateu”. Só podemos objetar: das duas, uma; ou o compositor mergulhou tão profundamente em seu subjetivismo que não enxergou uma contradição total nos versos, mas os aceitou devido à beleza da rima, ou então ele não crê que a Revelação de Deus seja de fato em palavras.

Ainda que eu pense que a primeira opção seja a verdadeira, é bom atentarmos brevemente para a segunda. É comum nos círculos neo-ortodoxos ou pós-moderno é acerca da transcendência de Deus que não há espaço para uma revelação verbal. Esses teólogos auto-contradizentes, como exposto por Henry, ignoram duas coisas: Tanto a onipotência de Deus quanto sua imago. O homem não possui simplesmente a imagem de Deus. Ele é a imagem de Deus.

O conceito de Imago Dei encontra sua plenitude sem sombra de dúvida na pessoa de Jesus. Ele é o Logos de Deus. Expressão rica na língua grega, que expressa inúmeros conceitos. Ainda que de maneira limitada, as traduções da Bíblia seguem expressões adequadas: Jesus é a Palavra, ou o Verbo de Deus. É o Deus que se revela, que se comunica. Ele é aquele que é “A Imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação”(Cl 2.9). Vemos então que a forma física de Adão foi criada levando em conta a forma que o Verbo iria ter quando se fizesse carne, quando assumisse nossa humanidade.

Algo importante que nosso Senhor falou claramente é da autoridade da Escritura acerca dessa revelação. Podemos falar claramente dela como sendo “A Palavra de Deus”, até mesmo (parafraseando Edgar R. Lee no livro Panorama do Pensamento Cristão) o “exalar do Espírito”. A definição de Hills é bastante adequada. Temos uma revelação tripla: O Deus que se revela na natureza, nas Escrituras e no Evangelho - a Boa Nova que veio ao mundo, O “Emanuel, [que] traduzido é: Deus conosco” (Mt 1.23b) . Nessa revelação, Deus revela a si mesmo.

Se temos um Deus que se revelou, logo, temos também um Deus que se revela, ou que “explica” quem é e o que está fazendo. Obviamente, não temos como conhecer a Deus de forma total, porém de forma suficiente, Ele é o “grande Eu Sou”. Porém, quando vamos às Escrituras, vamos à Cristo, que diz: “Ninguém conhece quem é o Filho, senão o Pai, e ninguém quem é o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Lc 10.22). Em Cristo, podemos conhecer a Deus de maneira extremamente pessoal. E então encontramos nosso propósito, como sintetizado de maneira atemporal no Catecismo Menor de Westminster: “Qual é o fim principal do Homem? Resposta: O fim principal do homem é glorificar a Deus, e se deleitar nele para sempre”

Conclusão.
Podemos estar certo que podemos falar de maneira adequada de Deus e que por certo podemos, dentro dos devidas limitações, “explicá-lo”, pois Ele mesmo se revelou. Quando lermos a Palavra, que tenhamos o incentivo do profeta Oseias, que não sejamos um povo que perece porque lhe faltou conhecimento, mas sim: “Conheçamos, e prossigamos em conhecer o Senhor. A sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, chuva serôdia que rega a terra.” (Os 6.3). Que esse seja o foco de nossa vida, e o ardente desejo de nosso ser.

AMÉM.

Soli Deo Gloria


1O artigo de J. P. Mendes está disponível em: < http://joaopaulo-mendes.blogspot.com.br/2016/07/ninguem-explica-deus-o-incognoscivel.html> onde o autor trata de maneira muito apropriada acerca do fato de não termos um conhecimento pleno do ser de Deus. Como o leitor há de notar, procuro focar na questão oposta, porém sem entrar em contradição com o artigo de João Paulo.
2STOTT, John. Eu creio na Pregação. Tr. Gordon Chown. São Paulo: Vida, 2003. p.100
3Op. Cit. p.99
4HILLS, Edward F. The King James Version Defended. 4° ed.Des Moines: Christian Research Press, 2001.p.4
5HENRY, Carl F. Deus, Revelação e Autoridade – O Deus que fala e age. Tr. Estevan Kirschnner. São Paulo: Hagnos, 2016. p.31

segunda-feira, julho 11, 2016

Ela não é linda? - O papel da atração física no namoro

O seguinte texto de Marshall Segal foi publicado no dia 19 de maio no Desiring God (original aqui). Ele é uma introdução importante para a nossa singela reflexão sobre namoro cristão.

Desculpe-me pelo delay na publicação desta tradução :-) Espero que sirva à sua edificação e meditação.

Que Deus seja glorificado.

P.S.: Se você costuma primeiramente ver o que vem pela frente para então decidir ler um texto, não se assuste. Você pode ler este texto aos poucos. Veja o que fica melhor para a sua situação. Eu sugiro a leitura em duas etapas: (1) ler até o fim do tópico "A beleza é vã"; (2) ler os dois tópicos restantes. É melhor ler aos poucos do que não ler nada :-)  

                                                        * * * * *
Na busca do casamento, quão significante deveria ser a atração física? Ou, qual papel, se existe algum, a aparência física desempenha em um namoro cristão?

Garotos têm vindo a mim ao longo dos anos perguntando acerca disso. Geralmente ele respeita ou admira uma jovem piedosa (ou, talvez mais frequentemente, outras pessoas em sua vida pensam que ele deveria admirá-la mais), e mesmo assim ele não é fisicamente atraído por ela. Ela não é o seu “tipo”, diz ele. “Ainda assim, eu deveria investir nela?”
O que você diria a ele?


Eu diria, “Não.” Ou pelo menos, “Não ainda.” Dados os pressupostos e as práticas comuns em nossa sociedade atual, incluindo a igreja, não acredito que um homem (ou uma mulher) deva iniciar um namoro com alguém por quem eles não são fisicamente atraídos. Se ele admira outras coisas sobre ela, incentivo fortemente que ele busque a sua amizade e conheça-a de maneira segura, não ambígua e não flertiva (provavelmente em grupos). Mas creio que a atração física, pelo menos na vasta maioria dos casos, é peça fundamental em discernir caso se deva namorar ou casar com alguém.

Dito isso, creio também que a atração física é muito mais profunda e dinâmica, e até mais espiritual, do que tendemos a pensar. Ela não é estática ou objetiva. A atração verdadeira, significativa, durável é muito mais que física. A aparência física de um homem ou de uma mulher desempenha apenas um papel no que os faz atraentes ou cativantes. O seu papel é enorme inicialmente, descreve muito a primeira vez que você vê alguém, quando tudo que você sabe sobre ele é o que você vê, antes até de que você saiba o seu nome ou ouça a sua voz. Mas o papel da aparência física necessariamente se desenvolve à medida que você aprende sobre alguém. Depois que você aprendeu mais sobre as pessoas – por meio de perguntas aos amigos delas, ou por ouvi-los falar, ou pela observação da maneira que vivem – você nunca as verá novamente exatamente como a pessoa que você viu na primeira vez.

Quanto mais você aprende sobre as pessoas, mais a aparência delas é preenchida, para melhor ou para pior, com um significado novo e mais profundo – com a personalidade delas, suas convicções, seu senso de humor, sua fé. A garota que uma vez pareceu deslumbrante pode perder muito de seu charme, e a garota que facilmente passava despercebida pode se tornar inegavelmente linda. Cada uma delas aparenta o mesmo que antes, e ainda assim não. Você as vê, inclusive a aparência física delas, diferentemente agora.


Atração física (e flexível) 

Você não acredita em mim? Pergunte aos pombinhos de amor de sessenta anos de idade se eles continuam “fisicamente atraídos” um pelo outro. Alguns deles estão mais atraídos do que nunca, e não é porque eles estão ganhando peso, perdendo seus cabelos, ou tendo mais dificuldades para se locomover. É porque a aparência deles, aos olhos de seus amados, é preenchida gradualmente com uma admiração que se aprofunda pela beleza no outro. Eles veem algo diferente nos olhos uns dos outros. As mãos estão enrugadas, mas familiares e seguras. As rugas são os anos de fidelidade e alegria gastos juntos. O amor deles não apenas contempla além da superfície, mas contempla a superfície com novos olhos.

Por outro lado, aquela celebridade que você acha tão sexy agora pode perder toda a atratividade dele ou dela durante a noite, literalmente em uma manchete. O rouba-coração [galã] bate em sua namorada, ou a mulher capa de revista dorme com mais três caras. Repentinamente, é mais difícil até mesmo olhar suas fotos novamente. Cada um deles aparenta o mesmo que antes, e ao mesmo tempo não. Você vê as mesmas fotos diferentemente agora – mesmo cabelo, mesmos olhos, mesma imagem – tudo subitamente não apelativo, não atrativo.

A atração física é real, mas flexível. Deus nos projetou para apreciar beleza em sua criação – para encontrar homens (para mulheres) ou mulheres (para homens) fisicamente atraentes – e isso é um elemento real e importante em nossa busca do casamento, e finalmente no nosso florescer dentro da aliança. Deus nos deu sentidos e desejos físicos para nosso bem. Mas isso é apenas uma parte do que faz alguém atraente, e não é a parte principal – nem de perto. A fé mútua em Jesus Cristo deve ser a coisa mais cativantemente atraente acerca de qualquer cônjuge em potencial.

A beleza é vã

Esta pode ser a coisa mais importante para se aprender sobre a atração física (ou sexual): aquilo em seu aspecto mais rico e completo, não é apenas, ou mesmo principalmente, físico (olhos, cabelo e imagem). “Vã é a beleza e enganosa a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor será louvada” (Provérbios 31:30). Por que Salomão precisava mesmo dizer isso? Porque a beleza e o charme (ou a formosura) físicos são naturalmente atraentes. Mas sem fé, eles estão desvanecendo, e rápido.  

Você pode olhar uma foto em um anúncio ou em um aplicativo e decidir se a aparência física de alguém é atraente para você, porém isto é semelhante a comprar uma casa baseando-se em uma foto do quintal. Muitas pessoas querem desfrutar de como a frente de suas casas aparenta, mas isso tipicamente não quebra a lista das dez ou quinze principais coisas que elas estão procurando em uma casa. Quantos quartos e banheiros? Os aparelhos domésticos foram atualizados nos últimos cinco ou dez anos? De que tipo de forma a fundação está? A faixada pode ser mais importante para algumas pessoas, mas elas provavelmente nunca foram donas de uma casa antes. O interior de uma casa – espaço, aparelhos domésticos, design interior – pode cobrir uma multidão de pecados do exterior. Mas nenhuma quantidade de tinta e criatividade no exterior pode consertar problemas sérios no interior.

Então, vamos fazer a pergunta de outra maneira. Um homem cristão deve investir em uma mulher cristã por quem ele é atraído fisicamente? Eu diria, “Não.” Isto é, se tudo o que você conhece ou gosta acerca dela é o que você vê. Eu o encorajaria a ser amigo dela e conhecê-la em maneiras seguras, não ambíguas e não flertivas (provavelmente em grupos), até que você saiba se há beleza verdadeira por trás de seu rosto e tudo o mais que qualquer um pode ver. Você tem visto o suficiente de sua fé, seu vigor espiritual e maturidade, sua semelhança com Cristo para saber se sua beleza é verdadeira e durável, ou superficial e passageira?

Melhor com a idade

Eu não encorajaria um homem a investir em uma mulher piedosa a quem ele não é atraído fisicamente, mas também não deixaria a conversa acabar aí. Eu daria a ele outras perguntas para ele responder a si mesmo. Por exemplo, se ela realmente é uma mulher piedosa, por que você pode estar mais atraído pela garota ímpia na sua aula de álgebra? Ou (para as mulheres), se ele verdadeiramente é um homem piedoso, por que você pode estar mais atraída pelo cara ímpio do seu local de trabalho?  

Como homens e mulheres piedosos, nós devemos achar a piedade incrivelmente atrativa. De fato, em nossos olhos e corações, esta deve ser a coisa mais atraente acerca da pessoa mais atraente. Isso não significa que se você é um cristão (ou cristã), você deve achar todo homem cristão (ou mulher cristã) atraente. Mas isto significa que deve haver um tema ou uma tendência em suas atrações.

Em nossos dias, parece sábio, em geral, para homens e mulheres namorarem alguém a quem eles são atraídos. E homens e mulheres cristãos devem ter os corações cultivados de modo que eles são mais atraídos pela fé e caráter do que qualquer outra coisa. O mundo ao nosso redor pregará que beleza física é tudo, mas nós conhecemos e desejamos melhor. De todas as pessoas no mundo, nós devemos ser os mais livres da escravidão a aparências físicas e à excitação sexual. Nossos olhos devem cada vez mais ser atraídos pela modéstia, não pela indecência

Conforme nós assumimos os olhos e o coração de Cristo, nós devemos cada vez mais ser aptos a ver através de todas as aparências temporárias e passageiras para as coisas que são verdadeiramente belas – as qualidades no outro que imitam Jesus e antecipam o céu. As qualidades que melhoram com a idade.

Minha esperança para os homens

Qual a minha esperança para homens cristãos? “E peço isto: que o vosso amor cresça mais e mais em ciência e em todo o conhecimento, para que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo; cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” (Filipenses 1:9-11).

Desejo que nossos homens (e mulheres) sejam conhecidos por reconhecer e aprovar o que é verdadeiramente excelente e belo, que haja uma pureza incomum e durável em nossas buscas pelo casamento. Que coisa maravilhosa seria se o mundo ficasse confuso hoje pelo seu interesse em uma mulher cristã que eles acham menos fisicamente atraente, apenas para isso ter que fazer todo o sentido vinte e cinco anos depois quando vocês estão alegremente casados (e mais atraídos pelo outro do que nunca) – e eles estão há cinco meses no quinto casamento deles.

Se você é um cristão, e você não é atraído à piedade conforme você gostaria que fosse, ou se você se sente obcecado por beleza física, o que você deve fazer? Confesse isso a um irmão. Traga alguém para peneirar estes desejos com você, alguém que possa ajudá-lo a aplicar o evangelho com graça e verdade. E então comece a procurar por evidências de graça em uma mulher piedosa.

É fácil notar características físicas – quase todo homem no mundo é capaz disso – mas discipline a si mesmo para notar e apreciar verdadeira beleza, a qual não é ostentada, mas escondida no coração de uma mulher e expressa em coisas como paciência, bondade e altruísmo. Diga uma oração de gratidão pelo que você vê em mulheres assim, e então compartilhe isso com seu amigo. Abandone as conversas mundanas e rudes de vestiário da sua mente, pelo louvor da verdadeira e duradoura beleza com humildade e respeito.


Aprenda a transitoriedade (vaidade) da aparência física (por si mesma) e as mentiras enlaçadoras do charme flertivo e da lisonja, e treine seu coração e mente para louvar e desejar a mulher cujo coração é ardente por Jesus.

sexta-feira, julho 08, 2016

Declaração de Fé Assembleiana: perigos e soluções.


Há algumas semanas atrás meu amigo e irmão em Cristo Gutierres Siqueira escreveu acerca da suposta “Confissão de Fé" assembleiana (termo utilizado pelo pastor Josué Gonçalves, que é um dos membros do comitê que elabora tal documento), termo esse que é na verdade rechaçado por outros pastores, que afirmam que na verdade não se trata de uma “Confissão de Fé” propriamente dita, mas sim de uma expansão do Cremos, que por sua vez é uma forma resumida da Declaração de Verdades Fundamentais das Assembleias de Deus nos Estados Unidos1. Com o intuito de lidar com questões contemporâneas. Dentro disso, surgiu a questão da influência da doutrina calvinista dentro do meio assembleiano, algo que foi tratado por Gutierres como sendo de menor importância, um assunto secundário. Ainda que eu aprecie profundamente e recomende a confecção de um documento de tal envergadura e concorde com Gutierres em vários pontos, há certas preocupações que ainda se mantêm e questões que não são tão facilmente esclarecidas, as quais procurarei ver a seguir.

Primeiramente, Siqueira afirma que o uso do termo “Confissão de fé” é inapropriado, por ser algo associado às grandes confissões do período da Reforma e pós-reforma, como os Trinta e Nove Artigos da igreja Anglicana, a Fórmula de Concórdia dos luteranos, ou a célebre Confissão de Fé de Westminster, dos presbiterianos. Os “Credos” seriam os antigos documentos antigos da cristandade (Credo Apostólico, Atanasiano, Niceno, etc). Todavia, ainda que a síntese histórica de apresentada por Gutierres se justifique, as definições técnicas não correspondem totalmente com essa descrição. No dizer de Paulo Anglada: “Os credos são declarações de fé resumidas... as confissões distinguem-se dos credos em extensão, por serem mais detalhadas, e quanto à época em que foram escritas...”2

O termo “Confissão” foi empregado até meados do século XIX e se refere a um documento que declara a crença de determinada denominação de forma mais pormenorizada e sistemática, produzindo, como consequência, um sistema de teologia. Logo, o fato do pastor Josué Gonçalves denominar o documento assembleiano de “Confissão de Fé” não está longe da verdade como parece ser, ainda que, na era atual, a expressão “Declaração de Fé”, seja mais sofisticada.

Em segundo lugar, é interessante notar a questão da controvérsia calvinista e a produção dessa nova declaração. Acerca de não haver nenhum obreiro calvinista dentro do conselho, Gutierres comenta:

“Esse tipo de pergunta só faz quem não conhece a denominação. Os pastores calvinistas nas Assembleias de Deus são um grupo importante, mas ínfimo. A denominação tem milhares de pastores e milhões de obreiros, mas os declaradamente calvinistas não enchem um ônibus, especialmente entre aqueles com acesso a postos de influência nas convenções estaduais. É claro que é sempre bom ouvir a divergência, mas sem delimitação esse trabalho duraria anos ou até décadas”

Essa declaração pungente seria prontamente aceita por mim, se quase todos os envolvidos na confecção não fossem arminianos militantes e duramente contra o calvinismo e se essa Declaração não fosse escrita em meio a uma controvérsia envolvendo esse sistema teológico3.

Por um caminho melhor.

Não há problema, a meu ver, de uma Declaração de Fé, na verdade, penso ser um passo denominacional importante rumo a uma maturidade doutrinária, ordem em meio a confusão e erros do neopentecostalismo, e assume uma validade confessional necessária à denominação. Todavia, penso que tal documento precisa ser feito com cuidado e tolerância evangélica necessária com relação a questão principal envolvendo calvinismo e arminianismo, pelo menos seguindo um pouco a Declaração Doutrinária da Convenção Batitsa Brasileira, que dá certa liberdade a ambos os sistemas, ainda que tenha uma certa tendência arminiana em seu bojo doutrinário4.

Como será essa Declaração? Apenas o futuro dirá. Porém temos firme confiança num futuro dirigido pela providência perfeita do Rei dos Reis.


Amém!

Soli Deo Gloria!

1 Para saber mais sobre esta questão, leia dois \rtigos escritos por Gutierres Siquera disponíveis nos seguintes links:
2 ANGADA, Paulo. Sola Scriptura: A doutrina reformada das Escrituras. 2° ed. Ananideua: Knox Publicações, 2013 p. 21
3 O fato de serem poucos os estudiosos envolvidos nesta questão não desmerece o documento como uma Confissão representativa. No dizer de Anglada: “um credo ou confissão de Fé pode ser pessoal. Comumente, entretanto, esses termos são empregados para designar credos e confissões que, embora possam ter sido escritos por uma só pessoa, adquiriram representatividade, tendo sido adotados por igrejas, movimentos ou denominações” (Cf. ANGLADA, Op. Cit. p. 22)
4 Isso não só se refere a questão da controveŕsia Arminiano/Calvinista, mas pode também se aplicar em alguns pormenores, como por exemplo a questão do Dispensacionalismo Clássico/ Progressivo, a questão do pré/mid-tribulacionismo, ou até mesmo, com certo cuidado, a questão do Criacionismo Terra Jovem/Antiga (o Evolucionismo Teísta ou Criacionsimo Profressivo estaria totalmente fora de questão).

segunda-feira, junho 06, 2016

Conquistar uma garota genuinamente cristã não é fácil

Queridos leitores, peço desculpas pelo tempo entre a escrita deste texto e a do anterior. Devido a alguns compromissos na igreja e na universidade, ficou difícil escrever e esclarecer as dúvidas que surgiram.

Algumas pessoas acharam que o artigo anterior estava com problema, ou que eu havia esquecido de pôr o corpo do texto. Mas, na verdade, o texto consistia apenas nos três pontos mesmo. A minha ideia era de que conquistar uma garota genuinamente cristã não é fácil. Não há fórmulas ou artimanhas para que se entre num relacionamento (verdadeiramente) cristão. Não estamos falando de presas; estamos falando de servas de Deus. Espero que a maioria dos leitores tenha pelo menos refletido sobre essa questão.

Com o intuito de que pensemos adequadamente sobre os principais aspectos que permeiam a questão do namoro e do casamento cristãos, a partir desta semana eu irei fazer algumas postagens (a priori três) sobre o tema (prometo que não serão apenas três pontinhos :-) ). Vale ressaltar que provavelmente a maioria dessas postagens consistirá em traduções de artigos de outros irmãos.

Que Deus seja glorificado. Até a próxima.

terça-feira, maio 10, 2016

O cristão introvertido

O seguinte texto de Tim Challies foi escrito em janeiro de 2013 (original aqui). Ele aborda a questão da introversão de maneira interessante, e tanto eu quanto o irmão Victor entendemos que ele pode ser de grande valia para todos nós.

Que Deus seja glorificado.

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Quando 2012 chegava ao fim, blogs e meios de comunicação rapidamente foram dominados por dicas dos melhores livros do ano. Um dos livros que eu vi em muitas daquelas listas foi o de Susan Cain: Silencioso: O poder de introvertidos em um mundo que não pode parar de falar. Ele é um livro que eu já estava desejando ler durante o ano inteiro, até que finalmente baixei a sua versão em áudio e o ouvi nos feriados. Foi uma experiência interessante para mim e me proporcionou muitas oportunidades para reflexão e autoexame. O que escrevo hoje não é uma resenha do livro, e sim mais uma reflexão sobre seu conteúdo - uma reflexão sobre o cristão introvertido. 

Não há dúvida de que sou um introvertido. Se pusermos introversão e extroversão em lados opostos de uma reta e dissermos que cada um de nós cai em algum lugar entre os dois extremos, eu estaria bem longe do centro, em direção ao lado introvertido da escala. Posso não estar tão além do centro como algumas pessoas, eu ainda gosto de alguma exposição a milhares de pessoas, mas no íntimo eu adquiro energia e perspectiva na solidão e então eu a gasto em uma multidão. A minha reação padrão diante de uma multidão é correr para encontrar um lugar de tranquilidade. Amo e gosto de pessoas, mas lido melhor com pequenos grupos do que com grandes. Mesmo depois de muitos anos falando em público, estar diante de uma multidão ainda toma bastante esforço e exige renúncia. Eu ando em direção à frente de um salão devagar e, quando termino, volto rapidamente para trás. 

Silencioso fez com que eu entendesse melhor acerca de mim mesmo. Em algumas maneiras, Cain apresentou-me a mim mesmo. Eu tive todos aqueles tipos de momentos de "Aha!", onde as coisas que eu pensava há tempos, ou sentido repentinamente, fizeram sentido. Foi refrescante. Contudo, à medida que eu avançava na leitura, achei que isto estava inesperadamente fazendo algo profundo no meu interior. Comecei a sentir um tipo de paz com minha introversão que pode ter ido um pouco longe demais. Até mesmo Aileen [esposa do autor] notou isso em mim e o destacou. Ela notou que eu comecei a me sentir justificado em fugir de multidões e estar sozinho. Ela disse que eu estava me tornando egoísta. 

Creio que Deus me fez introvertido. Parece claro que alguns de nós são mais desinibidos enquanto outros são inclinados naturalmente a serem calados. Eu sou introvertido de natureza e isto é parte do bom projeto de Deus. Um não é inerentemente errado nem é intrinsecamente melhor que o outro. Mas o que Cain não reconhece, escrevendo de uma perspectiva secular como ela o faz, é que nós habitamos num mundo de pecado onde qualquer peculiaridade ou qualidade pode ser usada para fins que glorificam a Deus ou para fins de autoglorificação. Não apenas isso, mas Deus nos chama para estarmos sempre dispostos a negar nossos desejos a fim de servir a outros. Tanto introvertidos quanto extrovertidos enfrentarão tentações particulares para pecar. A minha tentação como um introvertido é de rapidamente distanciar-me de pessoas ao invés de servi-las. É ser egoísta ao invés de altruísta. 

A vida cristã é uma vida de renúncia. É uma vida de dizer, "Ainda que isto seja o que eu quero, o dever me leva a fazer algo diferente." Há muitas vezes que nego meus próprios desejos a fim de servir os outros. Até mesmo o desejo de estar sozinho. David Powlison trata disso bem: 

"A vida cristã é um grande paradoxo. Aqueles que morrem para si, encontram a si mesmos. Aqueles que morrem para seus desejos receberão muito mais nesta era, e, na vindoura, vida eterna (Lc 18.29). Eles encontrarão novas paixões pelas quais é digno viver e morrer. Se eu desejo felicidade, receberei miséria. Se eu desejo ser amado, receberei rejeição. Se eu desejo significado, receberei futilidade. Se eu desejo controle, receberei caos. Se eu desejo reputação, receberei humilhação. Mas se anseio por Deus e Sua sabedoria e misericórdia, eu receberei Deus, sabedoria e misericórdia. Durante o caminho, cedo ou tarde, também receberei felicidade, amor, significado, ordem e glória." 

Eu não tenho nenhum direito de desejar a solidão introvertida. Em vez disso, o evangelho me leva a negar até mesmo essa característica e todos os seus desejos a fim de servir outras pessoas. Eu sou introvertido, porém isto não me dá um chamado diferente na vida em relação aos cristãos gregários [que vivem em grupo]. 

O que tive de enfrentar enquanto ouvia o livro Silencioso é que introversão é o que eu sou, não quem eu sou. E isto é onde a discussão de introversão e extroversão geralmente parece tomar um caminho errado. Nós elevamos tanto essas características e as utilizamos para justificar o egoísmo em vez do altruísmo. Tenho de ser cauteloso ao me definir em categorias não bíblicas. Isto não é dizer que é errado falar que sou introvertido, mas que esta é uma distinção que a Bíblia não faz. Sendo este o caso, eu não quero permitir que a introversão me defina ou dite o meu comportamento. A introversão é uma descrição útil, mas também uma definição pobre. 

"Porque nós não somos, como muitos, falsificadores da palavra de Deus; antes, falamos de Cristo com sinceridade, como de Deus na presença de Deus... não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus... E Temos, portanto, o mesmo espirito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nós cremos também, por isso também falamos. Sabendo que o que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também por Jesus, e nos apresentará convosco"

2 Coríntios 2:17; 3:5; 4:13-14